Na semana seguinte ao passamento do meu pai resolvi dar uma espiada
no rancho em que guardava um monte de tralhas. Encostado na parede,
logo ao chegar no rancho, estava seu cajado de Papai Noel. Foi
suficiente para lembrar-me do dia em que telefonei para ele, da
cidade em que eu morava, perguntando:
- Pai, eu estava pensando: que tal você ser o Papai Noel no Natal?
As crianças iriam adorar! Elas nunca tiveram um Papai Noel em casa!
Papai silenciou.
- Eu? Você acha que eu tenho jeito pra isso?
- Mas é lógico! Você é gordinho, tem cabelos brancos e é muito
divertido!
- Mas eu não tenho barba ...
- Não faz mal, isto é fácil de dar um jeito!
Levou um tempo, mas não muito, para que saíssemos às compras do
tecido vermelho, pano branco, peludinho, para as bordas e levássemos
tudo isto à costureira. Meu pai, o vô das crianças, se empolgou
tanto com a idéia, que logo ajeitou também um par de botas com as
bordas de pano branco peludinho e um cinto antigo. Costurei o saco
dos presentes e ficamos os dois, ansiosos pela chegada do Natal.
Seria uma surpresa para as crianças, que não tinham a menor idéia do
que as esperava!
Na noite de Natal nos pusemos, meu marido, minha mãe e as crianças a
rezar e acender as velinhas do pinheiro. Tradição esta trazida por
nossos ancestrais e que sempre fiz questão de continuar cultivando
em casa. Lá pelas tantas, tocou a campainha. Deixamos que as
crianças fossem abrir a porta e a alegria delas foi tamanha que não
conseguiam quase fechar a boca nem parar de pular pela sala!
Os Natais se sucederam, e acabou virando rotina a chegada do Papai
Noel para fazer a entrega dos presentes. Era comum passarmos o dia
com mais amigos, parentes e suas famílias, sempre compostas com mais
crianças pequenas. Revezávamos o local da comemoração: ora era na
nossa cidade, ora era na cidade dos avós. Quando a festa acontecia
na casa dos avós, era necessário cuidar para que as crianças não
descobrissem os presentes no carro. Mas sempre dava certo e elas não
suspeitavam de nada.
Antes que o Papai Noel tocasse a campainha, reservávamos um momento
para uma breve leitura de trechos da Bíblia, enfatizando o
nascimento no Menino Jesus. Estes trechos eram cuidadosamente
selecionados pelo meu marido, e não havia quem não se sentisse de
alguma forma tocado, tanto pelas palavras lidas, quanto pelo clima
harmonioso que se formava.
Mas papai era divertido, e engraçado: num dos Natais usou um óculos
escuro enorme, porque achava que as crianças iam reconhecê-Io!
Noutro Natal, o aplique do bigode começou a cair, o que exigiu uma
ação rápida sem que ninguém percebesse.
Num outro Natal ainda, tivemos a visita de Michael, um primo de
quatro anos e que morava nos Estados Unidos. O pai de Michael
perguntou qualquer coisa que teve como resposta o Papai Noel ser o
'vô Ingo'. Quase que minha casa caiu! Levei o maior susto, pois
ainda não era hora das crianças terem esta revelação! Mas o episódio
também não teve maiores conseqüências, pois Michal respondeu em
inglês, não levantando a curiosidade das cnanças.
Ao longo dos anos meu irmão teve uma filha e quando nossos três
filhos já estavam bem crescidos, nasceram mais dois sobrinhos. As
festas de Natal ficaram então mais divertidas. Muitas fotos foram tiradas, e como gosto de organizá-Ias,
para que não rolem de caixa em caixa e se percam as datas, sempre as
colei em álbuns.
Certo dia, uma de nossas filhas pegou um dos álbuns e começou a folhear
as páginas, reparando nas referências escritas. De repente correu para
mim, braba, desconsolada e muito surpresa com uma foto que trazia a
seguinte referência: 'Vô Ingo vestido de Papai Noel'. Ela já tinha seus
oito anos, acabara de aprender a ler na escola, onde os comentários
sobre Natal e Papai Noel eram corriqueiros. Por isso, sempre imaginei
que as crianças já soubessem da aventura que o vô empreendia a cada
Natal. Tive um problema a ser resolvido e foram várias as conversas que
então tivemos a respeito. Fiquei um pouco decepcionada, pois achei que
não tinha me preparado o suficiente para desvendar-Ihes meu segredo com
o vôo Pedi que não revelasse os segredo aos irmãozinhos, o que cumpriu
com todo rigor e certa cumplicidade! Alguns Natais se passaram até que o
segredo deixou de ser segredo ... Naquele ano, quando chegou o mês de
dezembro e comuniquei às crianças que não teríamos mais Papai Noel, pois
todos já sabiam quem fazia o papel, houve uma revolta geral em casa:
- Quem disse que não queremos mais Papai Noel?
- Eu também quero que o Papai Noel continue entregando os presentes pra
mim!
- A Sáskia e o Henry (os filhos de meu irmão) são pequenos ainda: o vô
tem que
continuar sendo o Papai Noel, pois eles vão gostar muito! Assim como nós
sempre gostamos!
Nunca vou esquecer a satisfação que meu pai sentiu, ao dar-lhe a notícia
que continuaria fazendo o seu papel! Numa ocasião, se preparou, foi para
a rua, como sempre fazia, e veio caminhando em direção a nossa casa.
Durante esta caminhada encontrou pessoas e crianças na rua e nas casas
vizinhas, brindando e desejando Boas Festas. Ele nos contou este
episódio, muito emocionado, após sua encenação. Ficamos todos muito
contentes. Dos Natais que se seguiram, houve apenas uma vez que
contratamos um outro Papai Noel, pois o vô estava adoentado e eu quis
poupar-lhe da emoção. Mas seguimos, nas festas posteriores,
proporcionando-lhe a satisfação de continuar com o papel, pois amava de
coração ver as crianças como suas 'ajudantes' e de olhinhos brilhando
com sua presença!
No último Natal, do ano passado, preferimos que meu pai não o fizesse.
Ele estava muito doente e debilitado e diante da possibilidade de eu,
nós ou ele não suportarmos a emoção e nos deixarmos chorar no meio da
sala, preferi, e a família concordou, em que fizéssemos uma comemoração
diferente. Meu irmão também não pode vir naqueles dias. Meu pai tinha
feito um cajado novo, o cajado que estava encostado na parede do rancho.
Mas ele foi ao encontro dos netos, na cidade em que moram, e em janeiro
mesmo, cumpriu com sua última tarefa de Papai Noel. As crianças, muito
pequenas, nem se deram conta de que o Natal já tinha passado: festejaram
da mesma forma, como a mesma intensidade!
Agora estava eu ali, admirando o cajado que esperava o próximo Natal...
eu ainda podia ouvir o sino que ele usava, anunciando sua chegada!
Papai deixou o nosso convívio em junho. Mas sei que deve estar junto com
os outros ajudantes do Papai Noel, lá no Pólo Norte! Deixou-nos o
presente mais valioso que podíamos receber, uma mensagem de afeto e
dedicação: que a fantasia também enaltece, enternece e enriquece a alma
humana! Não deixemos jamais de acreditar, pois em cada coração amoroso,
pode existir um Papai Noel!
Texto publicado na Revista Seleções do Reader's Digest, em dez/2005.