Ellen Crista da Silva


Biografia
Ellen Crista da Silva, cujo sobrenome de família é Schulz, nasceu e viveu sua infância e adolescência na cidade de Blumenau. Do lado paterno herdou a descendência alemã e do lado materno, a descendência polonesa. No período em que viveu em Blumenau, ouvia a mãe narrar as histórias vividas na época da guerra. Estas histórias permeavam a vida da autora com uma certa simplicidade e normalidade, mas tomaram um outro sentido quando da queda do regime comunista e da queda do muro de Berlim. A partir de então passou a investigar mais sobre os fatos que compunham a história da mãe e procurou transcrevê-los, até que tomaram a forma de um livro.
Da sua caminhada acadêmica constam formação em Letras-Alemão e Mestrado em Lingüística, ambos pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Atualmente leciona na UnB-Universidade de Brasília.
Publicou artigos em revistas em território nacional e no exterior, além de ter participado na elaboração e editoração de periódicos informativos em diversas instituições.
Foi premiada em diversos concursos, mas recebeu seu primeiro prêmio em redação, em 1969, quando estudava no Colégio Sagrada Família, em Blumenau. A paixão por escrever é sua nota tônica.

 


Publicações

 

Livros

 

Yanka: a fuga da guerra e o refúgio no Brasil

2007. Florianópolis: Ed. Insular. 176p.

 

Trabalhos em eventos

 

De onde vens palavra? In: GEBETSFAHNEN GLEICH WEHEN ÜBER DER BRÜCKE. 27 Dez 2003 a 08 Jan 2004. Köln am Rhein/ Colônia – Deutschland/ Alemanha.

 

 

Artigos em periódicos, revistas (magazines) e sites

 

Estudo sobre a palavra Strudel

2007. www.alemaja.org. Brasília-DF

 

Polônia: uma janela para o mundo.

In: Projeções-Revista de estudos polono-brasileiros. 2007. Curitiba: Projeções. N.01. p. 111-121.

 

Polônia: uma janela para o mundo.

2006. www.revistaprojecoes.com. Curitiba-PR

 

Saudades do Papai Noel

In: Seleções do Readers Digest. 2005. Rio de Janeiro. v.12. p. 17-20.

 

Expressar as qualidades inerentes à Igreja, coletiva e individualmente.

In: O Arauto da Ciência Cristã. 1996. Boston: The Christian Science Publishing Society.v.46, n.06. p.3-6.

 

La Lécción-Sermón: uma protecición diaria.

In: El Heraldo de la Ciência Cristiana. 1994. Boston: The Christian Science Publishing Society.v. 44, n.03. p.13-15.

 

Lição-Bíblica: uma proteção no dia-a-dia.

In: O Arauto da Ciência Cristã. 1993. Boston: The Christian Science Publishing Society.v. 43, n.08. p.74-76.

 

The Lesson-Sermon: day-to-day protection.

In: Christian Science Sentinel.1993. Boston: The Christian Science Publishing Society.v. 95, n.28. p.08-11.

 

Aqui e agora.

In: O Arauto da Ciência Cristã. 1992. Boston: The Christian Science Publishing Society.v. 42, p.63.

 

Nascem as flores.

In: Colibri (Revista do Anabá Jardim-Escola). 1997. Florianópolis. v.03. p.18

 

Como conheci o Anabá e o que ele representa para mim.

In: Colibri (Revista do Anabá Jardim-Escola). 1996. Florianópolis. v.02. p.20-21.

 

 

Textos em Jornais

 

A Polônia que eu vi: impressões sobre algumas cidades visitadas.

In: Jornal Polska w Brazilii.   Abr 2008. São Bento do Sul. n.26. – Zelazowa Wola

                                               Mar 2008. São Bento do Sul. n.24. - Opole

                                               Fev 2008. São Bento do Sul. n.23. - Auschwitz

                                               Mar 2008. São Bento do Sul. n.22. - Cracóvia

                                               Fev 2008. São Bento do Sul. n.21. - Varsóvia

 

 

Meu filho querido

In: Jornal da CEF. Florianópolis. 1984.

 

Nosso amigo Bertram.

In: O Acadêmico (FURB). 1978. Blumenau. V.38. p.5.

 

 


Textos

 

Um Papai Noel de verdade ...
(Ellen Crista da Silva! 2005)

Na semana seguinte ao passamento do meu pai resolvi dar uma espiada no rancho em que guardava um monte de tralhas. Encostado na parede, logo ao chegar no rancho, estava seu cajado de Papai Noel. Foi suficiente para lembrar-me do dia em que telefonei para ele, da cidade em que eu morava, perguntando:

- Pai, eu estava pensando: que tal você ser o Papai Noel no Natal?

As crianças iriam adorar! Elas nunca tiveram um Papai Noel em casa!

Papai silenciou.

- Eu? Você acha que eu tenho jeito pra isso?

- Mas é lógico! Você é gordinho, tem cabelos brancos e é muito divertido!

- Mas eu não tenho barba ...

- Não faz mal, isto é fácil de dar um jeito!

Levou um tempo, mas não muito, para que saíssemos às compras do tecido vermelho, pano branco, peludinho, para as bordas e levássemos tudo isto à costureira. Meu pai, o vô das crianças, se empolgou tanto com a idéia, que logo ajeitou também um par de botas com as bordas de pano branco peludinho e um cinto antigo. Costurei o saco dos presentes e ficamos os dois, ansiosos pela chegada do Natal. Seria uma surpresa para as crianças, que não tinham a menor idéia do que as esperava!

Na noite de Natal nos pusemos, meu marido, minha mãe e as crianças a rezar e acender as velinhas do pinheiro. Tradição esta trazida por nossos ancestrais e que sempre fiz questão de continuar cultivando em casa. Lá pelas tantas, tocou a campainha. Deixamos que as crianças fossem abrir a porta e a alegria delas foi tamanha que não conseguiam quase fechar a boca nem parar de pular pela sala!

Os Natais se sucederam, e acabou virando rotina a chegada do Papai Noel para fazer a entrega dos presentes. Era comum passarmos o dia com mais amigos, parentes e suas famílias, sempre compostas com mais crianças pequenas. Revezávamos o local da comemoração: ora era na nossa cidade, ora era na cidade dos avós. Quando a festa acontecia na casa dos avós, era necessário cuidar para que as crianças não descobrissem os presentes no carro. Mas sempre dava certo e elas não suspeitavam de nada.

Antes que o Papai Noel tocasse a campainha, reservávamos um momento para uma breve leitura de trechos da Bíblia, enfatizando o nascimento no Menino Jesus. Estes trechos eram cuidadosamente selecionados pelo meu marido, e não havia quem não se sentisse de alguma forma tocado, tanto pelas palavras lidas, quanto pelo clima harmonioso que se formava.

Mas papai era divertido, e engraçado: num dos Natais usou um óculos escuro enorme, porque achava que as crianças iam reconhecê-Io! Noutro Natal, o aplique do bigode começou a cair, o que exigiu uma ação rápida sem que ninguém percebesse.

Num outro Natal ainda, tivemos a visita de Michael, um primo de quatro anos e que morava nos Estados Unidos. O pai de Michael perguntou qualquer coisa que teve como resposta o Papai Noel ser o 'vô Ingo'. Quase que minha casa caiu! Levei o maior susto, pois ainda não era hora das crianças terem esta revelação! Mas o episódio também não teve maiores conseqüências, pois Michal respondeu em inglês, não levantando a curiosidade das cnanças.

Ao longo dos anos meu irmão teve uma filha e quando nossos três filhos já estavam bem crescidos, nasceram mais dois sobrinhos. As festas de Natal ficaram então mais divertidas. Muitas fotos foram tiradas, e como gosto de organizá-Ias, para que não rolem de caixa em caixa e se percam as datas, sempre as colei em álbuns.

Certo dia, uma de nossas filhas pegou um dos álbuns e começou a folhear as páginas, reparando nas referências escritas. De repente correu para mim, braba, desconsolada e muito surpresa com uma foto que trazia a seguinte referência: 'Vô Ingo vestido de Papai Noel'. Ela já tinha seus oito anos, acabara de aprender a ler na escola, onde os comentários sobre Natal e Papai Noel eram corriqueiros. Por isso, sempre imaginei que as crianças já soubessem da aventura que o vô empreendia a cada Natal. Tive um problema a ser resolvido e foram várias as conversas que então tivemos a respeito. Fiquei um pouco decepcionada, pois achei que não tinha me preparado o suficiente para desvendar-Ihes meu segredo com o vôo Pedi que não revelasse os segredo aos irmãozinhos, o que cumpriu com todo rigor e certa cumplicidade! Alguns Natais se passaram até que o segredo deixou de ser segredo ... Naquele ano, quando chegou o mês de dezembro e comuniquei às crianças que não teríamos mais Papai Noel, pois todos já sabiam quem fazia o papel, houve uma revolta geral em casa:

- Quem disse que não queremos mais Papai Noel?

- Eu também quero que o Papai Noel continue entregando os presentes pra mim!

- A Sáskia e o Henry (os filhos de meu irmão) são pequenos ainda: o vô tem que

continuar sendo o Papai Noel, pois eles vão gostar muito! Assim como nós sempre gostamos!

Nunca vou esquecer a satisfação que meu pai sentiu, ao dar-lhe a notícia que continuaria fazendo o seu papel! Numa ocasião, se preparou, foi para a rua, como sempre fazia, e veio caminhando em direção a nossa casa. Durante esta caminhada encontrou pessoas e crianças na rua e nas casas vizinhas, brindando e desejando Boas Festas. Ele nos contou este episódio, muito emocionado, após sua encenação. Ficamos todos muito contentes. Dos Natais que se seguiram, houve apenas uma vez que contratamos um outro Papai Noel, pois o vô estava adoentado e eu quis poupar-lhe da emoção. Mas seguimos, nas festas posteriores, proporcionando-lhe a satisfação de continuar com o papel, pois amava de coração ver as crianças como suas 'ajudantes' e de olhinhos brilhando com sua presença!

No último Natal, do ano passado, preferimos que meu pai não o fizesse. Ele estava muito doente e debilitado e diante da possibilidade de eu, nós ou ele não suportarmos a emoção e nos deixarmos chorar no meio da sala, preferi, e a família concordou, em que fizéssemos uma comemoração diferente. Meu irmão também não pode vir naqueles dias. Meu pai tinha feito um cajado novo, o cajado que estava encostado na parede do rancho. Mas ele foi ao encontro dos netos, na cidade em que moram, e em janeiro mesmo, cumpriu com sua última tarefa de Papai Noel. As crianças, muito pequenas, nem se deram conta de que o Natal já tinha passado: festejaram da mesma forma, como a mesma intensidade!

Agora estava eu ali, admirando o cajado que esperava o próximo Natal... eu ainda podia ouvir o sino que ele usava, anunciando sua chegada!

Papai deixou o nosso convívio em junho. Mas sei que deve estar junto com os outros ajudantes do Papai Noel, lá no Pólo Norte! Deixou-nos o presente mais valioso que podíamos receber, uma mensagem de afeto e dedicação: que a fantasia também enaltece, enternece e enriquece a alma humana! Não deixemos jamais de acreditar, pois em cada coração amoroso, pode existir um Papai Noel!

Texto publicado na Revista Seleções do Reader's Digest, em dez/2005.

 

 

O CORPO EMBORCADO

(Ellen Crista da Silva! jul 2002)
 

Ela estava de pé, diante da pia, um tanto quanto apressada para terminar o almoço. Tinha de sair correndo, para buscar as meninas na escola. As panelas chiavam o último cozimento quando tocou a campainha. Maria não estava por perto, por isso correu à porta. Duas meninas lhe pediram um copo d'água. Ela trouxe-Ihes um copo d'água, sentindo-se feliz por saciar uma sede.

Noutro dia, enquanto preparava o almoço, meio esbaforrida, contando os minutos para sair à escola, a campainha tocou de novo. Pediu que Maria atendesse. Maria voltou dizendo das meninas que lhe pediram um copo d'água. A mulher então, levou-Ihes o copo. Eram pequenas, vestidas de maneira simples, suando do calor e das brincadeiras que faziam morro acima quando voltavam pra casa, depois das aulas. Num momento compadeceu-se, e vieram-lhe imagens dum dia num sítio: depois de uma longa caminhada pelos arrozais, parou em volta do poço e sorveu de sua água cristalina e gelada em caneca rústica de alumínio ...

Há uma fonte de água pura no meio do bambuzal...

Mas no dia seguinte, a campainha insistiu novamente, justo no alvoroço do preparo do almoço ... Novamente as meninas - novamente um copo de água. De posse do copo, levou­o e alertou-as de beberem água na escola, antes de subirem o morro. No dia seguinte não lhes daria água ... O copo estava emborcado.

Primeiro: porque estava atarefada cuidando do almoço da família ...

Segundo: porque não poderia passar todos os dias atendendo a campainha e servindo água a todos os passantes ...

Terceiro: porque considerava um abuso, uma quase falta de respeito. Teria que dar sempre tudo? Quantas vezes já lhe tinham batido à porta em busca de alguma coisa ... Dava-Ihes sempre de tudo: pratos de comida, roupas e dinheiro. Mas não paravam de lhe bater à porta. Só não voltavam mais quando lhes dava algo para ler e procurava confortá-Ios e animá-Ios a ter esperança. Que queriam, afinal? -Não! a partir de hoje o copo está emborcado!

Há uma fonte de água pura lá no meio do bambuzal...

Voltou atônita para a cozinha. Desconcertada. Não podia negar-Ihes água. Ou podia? Não deveria ... Não deveria ... Sabia que não devia negá-lo. ..

Enquanto caminhava de volta para a cozinha, lembrou-se de como era uma vez, como as meninas, pobre e magricela. De como também usufruíra das muitas roupas que lhe davam. Sabia-se feliz por recebê-Ias! Sentia-se amada e lembrada, porque numa época, no Ginásio, fora esquecida de um dia para o outro pelas colegas. As brincadeiras nas casas das amigas, que eram ricas, mas que para ela não fazia diferença entre ser ou não ser, já não aconteciam mais. Seu pai perdera o emprego e não era mais ninguém. Não para eles.

Mas há uma fonte de água pura no meio do bambuzal...


No outro dia, ao meio-dia, a campainha não tocou. Maria disse que tinham batido à porta durante a semana toda. Todos os dias. Pedindo água ...

A mulher sabia o que era pedir água. E sabia o que era emborcar-Ihes o copo. Quantas vezes tinha estendido a mão em busca de um pouco, e esta tinha-lhe retomado do jeito que fora estendida. Tímida, calava-se então, na incompreensão do gesto. Não dormia mais. Não comia direito. Não lhe entendiam os segredos. Viu a morte diante dos olhos e este fantasma desconhecido atormentou-lhe o resto das noites. Da vida. Que era afinal a vida? "Um fio ... " disse alguém. Mas bastaria um copo de água. No bambuzal havia uma fonte.

Lamentou-se das meninas não voltarem. Como recusar-Ihes esse bem? Será que sabiam que lhes era possível saciarem sua sede para sempre? Será que sabiam algo da vida, de como enfrentá-Ia? Tantos lhe batiam à porta mas não queriam ouvir falar de "possibilidades". Queriam comida ou dinheiro. Para um que lhe pediu dinheiro, ofereceu comida e este se foi. Disse que voltaria em seguida e nunca mais voltou!

Que necessita a humanidade, se não quer ouvir que cada um tem uma capacidade extraordinária dentro de si? Se não quer descobrir esses valores dentro de si? Se não se amam? Como ensinar a cada uma a se amar? A se descobrir? A se valorizar? Será que um copo de água satisfaz? Será que um copo de água basta para lavar o interior de cada um a ponto de descobrir o que tem encoberto? A ponto de deixar transparecer a luz de cada um? Há uma fonte ...

A mulher não se ressentiu dos que lhe emborcaram o copo de água durante a vida. Foram estes que a impulsionaram. Foram estes que não a deixaram vacilar, não a deixaram cair. O pão do diabo muitas vezes desceu-lhe seco pela garganta, rasgando tudo por dentro, por falta de água. Mas a caminhada valia a pena. Tinha de valer. Se estava nela, era porque tinha algum sentido. Não podia esmorecer. No fundo, sabia que há uma fonte de água pura no meio do bambuzal. Estava disponível para todos. Para ela também. No outro dia as meninas também não voltaram. Com o tempo, seu coração aquietou.

Maria não mencionava mais as meninas. A mulher simplesmente orava por elas. Esperava que sua água, de alguma forma, saciasse a sede delas para sempre. Mas de qualquer forma, se lhe batessem à porta, lhes desemborcaria o copo. Talvez até instalasse uma torneira do lado de fora do jardim, para que todos pudessem usufruir dela o tempo todo. Tinha todas as razões do mundo para não negar-Ihes esse gesto ... Mas ... seria suficiente? O é, para quem entende.

Embora haja uma fonte de água pura no meio do bambuzal.

Crônica que rcebeu "Menção Honrosa" no

]O. Concurso CCE de Criação Literária - dez/2002

 

 

 


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