ASSOBIO DOS VENTOS
Um ventão uiva na janela
Perpassa as fendas...
Carrega as folhas,
Assobia e arrepia.
Levanta a sombrinha e as saias.
Encrespa as águas do lago
Deslizam galhos ladeira abaixo...
Meus pés que nada os esquenta
Sentem o gelo que chegou à terra.
Uma brisa me avisa: lá fora, zero grau.
No frio chão de pedra
Seu Zé pôs sua cama:
Cobertor, gorro e meias e,
Claro!...papelão!
Um monte de jornais o encobre
E a pinga o deixa aquecido.
Um pedaço de lã ele juntou,
Uma lata de moedinhas, e
Um pires com farinha...
Sem saber se os seus um dia o acharão.
Um açoite corta o ar...
Vergam-se os bambus.
Temo que tudo se estilhace.
Meu ser se inquieta...
Me encho de letrinhas e livros.
Vou até a avenida e volto.
A garoa me desencoraja...
Aqueço-me com chás e bules de café,
Faço uma sopa quente de cebola e alho
E enroscada em echarpes me encolho no sofá.
Renovo o apelo,
Tiritando ao vento,
Vamos pro abrigo, seu Zé?
Lá dentro tem pão quentinho,
Janelas, teto e umas luzinhas.
Também tem seus companheiros,
Dos túneis, das avenidas,
Dos canteiros, das calçadas.
Dona, deixa eu com os meus trecos,
Madama,...lá não tem pinga, não!
"a poesia 'Assobio dos Ventos' está no livro 'O Último Gerente',
e foi dedicada a um pobre mendigo." (nota da autora)
AMOR
Meu coração pulula, acelerado e,
Solto. O amor surgiu! Formosura.
De mansinho achegou-se, loucura.
Com passos miudinhos, e beijos à beça.
Uma sonora alegre voz, aveludada
Preencheu todo o espaço, alegrou
Todo meu ego, e meu ser vaporoso.
Minha alma voa, estrela luminosa.
Como beija-flor sorvendo néctares, tua carícia.
Sinto a vida, pulsando multicolorida
Brilhos e afagos. Me acolhe, teu abraço.
Teu beijo me acalanta, meu tesouro.
Reteso esse pulsar, e saltitante
Revejo teu olhar faiscante.
Pra que ensaiar, decodificar,
Percepções, razões, sensações?...
Se a felicidade, o bem maior,
Que vale a pena viver, e se perder,
É somente amar e ser amada.
É amar você, e pra você viver!
ALIENAÇÃO
Luzes
Sussuros
Zumbidos
Gritos
Risos.
Turbilhão de vozes
ecoam no infinito.
Um ser vagueia ausente,
tonto, perdido.
Um tilintar sem fim.
Meus olhos procuram
No infinito mundo...
Incendeiam, lhe querem
buscam, clareiam.
Perpassam olhares sombrios,
vazios, ternos, bêbados,
azuis, verdes, vermelhos e negros.
Um ritmo forte inicia e,
um ribombar de bumbos
enfurece e enlouquece.
Robôs gesticulam...
Acho que vou explodir;
Ou me dividir,
Meio pra lá, meio pra cá.
Vou lhe rever...
No fundo do copo,
Nas gotas perdidas,
Nas sombras coloridas,
Nos corpos semicolados,
Na loucura dos desvairados,
Na faces crispadas
de suor pingadas;
Nas fumaças pelos ares,
Nas vozes atrozes,
Nos abraços estranhos,
Nos vultos surdos,
Nos rostos zonzos,
Nos sons.
Perdi-me na multidão