SEBianos no Almanaque do Vale do JSC  volta

Janeiro 2012

Doação

Entrego meus poemas
como se fossem flores
não flores
de talos cortados
mas mudas de sonhos
plantadas em vasos
de terra fofa.
E que de agora em diante
não mais poderei
regá-las sozinha...

Entrego meus poemas
como se fossem pães...
Pedaços de pão
de cada dia...
E a partilha que inicio,
apenas principia.

Terezinha Manczak

 

 

Pomerano pomerodense

                                  Rubens Bachmann

(Hino a Pomerode)

Sou descendente

de um povo,

uma nação,

que após a guerra

perdeu a pátria.

e fez da Terra

a pátria de todos

que a perderam

na guerra.

desde então

e dos tempos já idos

do Império Alemão,

onde fui soldado,

lavrador, funileiro,

sempre tive profissão.

nunca fui

Invasor,

nem desertor

ou sem-terra.

bandoleiro

arruaceiro ou

saqueador.

na paz

na guerra,

deixei Stettin.

no Oder

do Báltico distante

fui para o mar do Norte.

e de Hamburgo

num veleiro

ao Atlântico.

fui marujo

viajante

no porão.

Cruzei os mares

o Equador

do Norte ao Sul.

aportei na terra

Santa Catarina

do Brasil.

Subi o Itajaí

e o Testo

onde acampei.

Fiz meu roçado

meu rancho

me instalei.

fiz a casa

o clube, a igreja e

a escola.

tirei do baú

a velha concertina.

toquei

dancei, cantei

chorei.

a música

a dança, o canto

a saudade.

para mim

a morte

pros filhos

a dificuldade

pros netos

o pão.

De Pomern

No Oder

nasceu

POMERODE!

Sou

BRASILEIRO

POMERANO

POMERODENSE

meu irmão!


 

 

Olhares

               Izabella Pavesi

Hoje, só vim olhar o mar...

Esse imenso mar azul

Mar que brilhava longínquo

Da janelinha, lá embaixo,

Há um tempo passado.

Quanto atravesseis esses mares

Num grande pássaro de titânio,

Por sobre uma fina camada de

Algodõezinhos brancos dispersos,

Olhares incandescentes miravam

Os meus olhos lampejantes.

Lugar de deleites contrastantes,

Onde reclinam passageiros em

Mirabolantes mapas de viagens,

E inimagináveis rumos e rotas,

Impetuosos e cheios de “quereres”

Os milhões de raios do horizonte

Cobriam o imenso pássaro luminoso

A quietude dourada, prata e azul

Hoje se esconde... lá no alto dos céus.

 

 

Reflexo

                            Izabella Pavesi

No espelho d’água meu reflexo flutua
A coragem esculpindo liberdade.
Inseridos, os destroços de mim
E uns instigantes raios de luz.


 

 

Sussurro

             Dorothy De Brito Steil



Minha alma dorme serena

Na quietude,

Embalada pelo ócio,

Na tentativa de alcançar,

Minha plenitude

Em brancas nuvens

Acolchoadas e transparentes

Meus pensamentos emergem,

E ouvem, somente,

O sussurro de mim mesma.

 

 

Ao tempo

Isnelda Weise

qual a era de tua hora eterno tempo
em que instante misterioso te escondes
se em princípio delongado, num minuto
meu destino redefines, resoluto ?

se te busco, não me segues, não respondes
às imagens que dos séculos desenhas
vida e morte em teu pêndulo abrigas
e de suas fragilidades, sei, desdenhas .

tempo eterno, árduo enigma em movimento
como emergir de tua passagem sem saber
do acaso de um minuto em andamento?

quem me dera ser guardiã do teu momento
no relógio de tua quadra adormecer 
para, então, sorver a tez do firmamento.


 

o corpo do barco

                 Marcelo Steil

 

 

o corpo do barco

é um oco que ocupa

a vaga que o mar

lhe toma em garupa

 

e o volume d’água

que o bojo desloca

é a força que tolda

acima suas costas

 

o corpo do barco

acolhe o pescado

e os homens que deixam

no mar seus pecados

 

nos braços que os remos

nas curvas do dia

contornam os extremos

da vida, essa via

 

ao barco meu corpo

do pouco que resta

girar oceanos

em justa calestra

 

 

Seresta

          Lorreine Beatrice

Foi teu sorriso
que me fez despertar
enquanto embriagada
estava pelo toque
da tua melodia,
música viva
que transbordava de teu olhar.
Eu já sentia a primavera
mesmo ainda tão longínqua
penso que eram tulipas
que brotavam de teu cantar.
Meu sonho era pura festa
a mais linda seresta,
serenata de amor ao luar.
Não havias cantado
mas teu sorriso
já estava lá.


 

Ambiência

Maria de Fatima Martins Baumgärtner

No labirinto da vida
Caminhos desconexos
No cotidiano
Azul do mar
Um barco
Parte cheio de sonhos
Para entender seu destino
Basta olhar um menino
Soprando areia entre os dedos
Ignorando medos
Amparando sonhos
Na ambiência do mundo
Os desejos secretos
Descortinam-se em verso
Acolha este menino
Mesmo por um segundo
Construa um castelo
Enquanto ele brinca na areia
Deste doce universo


 

 

O seu olhar

Ilka Bosse

Seu olhar fala forte!
Brilhante, ardente, quente!
Olhos do âmago
Da vida, do mundo
Olhar serpente!
Olhar profundo!
Olhos que tanto desejo
Que beijo, que vejo
Olhos que amo
Que chamo, que clamo
Olhos da natureza
Da beleza, da certeza.
Olhar em seu olhar
É um revelar
Do meu delírio
Meu martírio
Meu implodir
Meu sorrir.
Olhos verdes, na cor
Que devoram a dor
Choram na solidão
Envolvem o coração.
Olhos poéticos
Serenos, cristalinos
Até felinos...
Olhos seus!
Aos quais me acendo
Me ascendo
Me prendo
Me rendo.
Olhos que me fazem
Aos seus pés inclinar
Reverenciar, endeusar.
Olhos pelos quais padeço
Pereço...
Mas jamais esqueço!
O SEU OLHAR.


 

 

 

Tudo o que quero... que posso ser

Eduardo de Alencar

Posso ser teu sol, tua primavera
quando teu céu tiver cor de outono... de melancolia.
Quero ser teu bálsamo...
mitigar teu cansaço, abrigar teu repouso.
Posso ser teu segredo... tua alegria
Ficar ao teu lado, debruçado como sombra que não se vê.
Quero ser teu amigo, repartir teu silêncio... te dar prazer.
Quando teu único desejo é estar ao meu lado.
Quero dançar contigo...
No ritmo de teu corpo, no compasso do teu passo.
Posso ser teu riso...
Quando o anoitecer te cobrir de pranto.
Quero respirar ofegante...
Enquanto aguardo inquieto por tua volta.
Posso ser teu sopro de vida...
Quero tudo, posso até nem ser nada.
Mas se perderes a esperança e sentires saudade
Posso tudo, até te amar... mais nada.
Te dar meu coração... de verdade.

 

 

Banco de pedra

Ivo Gomes de Oliveira

 

Oásis na longa estrada do tempo,
na sucessão de dias,
de horas, momentos...

Reposição salutar de energias!

Repouso para as pernas doridas
dos andarilhos da vida...

Delícia para a mente florida
do sonhador, poeta-escriba!

Trono do viageiro poeta,
palco da vida onde medra
a poesia seleta!

Poial sustentáculo
do meu canto lascivo,
Egrégora vibrante
dos versos de Dante
na Comédia que vivo!


 

 

Anti-poema

                  Danielle da Gama

Hoje quero o poema tranquilo

aquele que lê as soluções

que interrompe os soluços

quero o poema pílula

menos o poema estricnina

quero o poema brincando de balanço

o poema, aquele, que não vai cair e ralar os joelhos

na terceira ou quarta

estrofe

hoje quero o poema sigla

o poema bíblia

o poema claro

o poema escrito de ponta cabeça

no fim do caça-palavras

o poema que responde

a alternativa correta

e o poema, este, que não pasma não pensa e não se engana

apenas porque não quero examinar hipóteses

desvendar fábulas

e quero, acima de tudo,

menosprezar, lírica,

cada figura de linguagem.

quero o poema assim:

impassível, impossível.

Assim quereria o poema, eu.

 


 

Apocalipse 2
 

Necessário se faz
Reinventar a humanidade,
Antes que o Apocalipse
Sufragar as almas
No clarão da ganância,
Em desrespeito aos animais
Que em alados alertas,
Conclama a reflexão
No gemido da essência em nascer.

Ivo Hadlich (Scheik)