|

|
|
 |
Luiz Cláudio
Altenburg
Biografia
Luiz Cláudio São Thiago de Melo
Altenburg
Nascido no ano de 1980, Luiz Cláudio é graduado em História
pela Universidade Regional de Blumenau (licenciatura e
bacharelado), com especialização em História Social no
Ensino Fundamental e Médio pela UDESC (Universidade do
Estado de Santa Catarina). Atualmente exerce a função de
Historiador no Arquivo Histórico Municipal Theobaldo Costa
Jamundá, da cidade de Indaial. O Arquivo Histórico faz parte
da Fundação Indaialense de Cultura Prefeito Victor Petters.
Gosta de escrever contos e romances. Possui alguns contos
prontos e não publicados e romances em fase de elaboração.
Já possui um conto publicado – Grito de Agonia – no livro do
IIº Concurso Conto Crônica e Poesia, lançado em 2008 pela
Sociedade Escritores de Blumenau. Tem também dois artigos
acadêmicos publicados na Revista Blumenau em Cadernos, um no
ano de 2004 e outro em 2006. |

C onto
publicado – Grito de Agonia
Antologia
do II Concurso Literário SEB (Contos, Crônicas e Poemas)
2008
Textos
GRITO DE AGONIA
O silêncio era geral. Cerca de cinqüenta mil pessoas ficaram a
madrugada toda em pé, à espera do espetáculo principal.
Outras bandas haviam passado, com suas músicas repletas de
acordes delirantes. O público estava eufórico. Diante da
expectativa do último conjunto a se apresentar, ninguém
conseguia dizer nada.
A vocalista era jovem e bela, ícone de sua geração. Suas roupas,
seus trejeitos, sua postura no palco e sua bela voz como que
anestesiava as exaltações das pessoas que vinham vê-la. Todos a
seguiam como um exemplo. Imitavam sua roupa, seu jeito rebelde,
suas atitudes.
No entanto, Jenifer não estava bem. Doente há algum tempo, havia
se envolvido com parceiros diversos na área do sexo em desvario.
Esses encontros onde o amor está longe de comparecer eram
regados por altas doses de bebidas estimulantes e drogas.
Por meses esses encontros se repetiam, exaurindo as energias de
nossa vocalista. No entanto, sua voz bela e a sua juventude
ainda eram cultuadas pelos seus fãs que ansiavam por vê-la uma
vez mais.
Os seus companheiros do grupo musical sabiam que ela andava
diferente. Seu comportamento havia mudado. Não tinha mais
apetite, estava emagrecendo. Por vezes o seu humor oscilava
muito; numa hora estava alegre, noutra triste. Tinha também
ímpetos violentos de quebrar os objetos que estavam em sua
volta.
Mas mesmo assim sua voz melodiosa continuava. O público fiel a
estava esperando e ela não poderia decepcionar seus fãs. Bela
nos seus 23 anos e rica, tinha uma vida invejada por muitos. Mas
no íntimo, seu coração gemia de dor. Queria gritar, romper o
silêncio e botar para fora todas as suas angústias.
Há quanto tempo não via os seus pais? Difícil precisar. Desde
que a fama bateu à porta de sua vida, ela nunca mais teve tempo
para os seus familiares, para os amigos ou mesmo para o seu
antigo namorado Pedro, com quem havia trocado as primeiras
carícias de amor.
Isso foi antes das drogas, antes dos líquidos entorpecentes que
a deixavam eufórica, mas que paralisavam a sua razão.
Desde então, não teve mais notícia de Pedro, de seus pais, de
seus amigos.
Momentos antes do show, Jenifer estava angustiada. Queria sair
dali, ficar deitada em uma cama e esquecer da sua vida. Se
pudesse queria dormir para não mais acordar, para calar a voz da
consciência que a martelava sem cessar. Queria ficar sozinha,
longe das amizades que sempre a recebiam com um sorriso no rosto
e uma garrafa de whisky nas mãos. Alguém para conversar, em quem
ela pudesse confiar, mas não havia ninguém.
Logo o show teve início. A jovem e bela vocalista esboçou um
sorriso forçado e pôs-se à frente no palco. A multidão
silenciosa até aquele momento, começou a gritar e a fazer
algazarra quando a viram começar o espetáculo.
Na terceira música, mais ou menos, a vocalista subitamente
parou. Não conseguia mais. Embora sua voz estivesse ali, embora
soubesse as letras de cor, não podia mais seguir. Largou o
microfone. Os seus músicos entreolharam-se assustados. Isso
nunca aconteceu antes. Começou a chorar, como criança pequena,
na frente de cinqüenta mil pessoas. O público não entendeu muito
bem o que estava acontecendo e continuava a gritar e a delirar.
Colocou as mãos no rosto. Ficou de joelhos. No íntimo pediu
ajuda. Queria uma solução para os seus problemas. Chegou num
ponto em sua vida em que precisava tomar uma decisão: viver ou
morrer. Optou por viver.
Sentiu uma energia nova, uma vibração que serenou um pouco sua
angústia. Uma voz como que dizendo: “levanta, não estás sozinha.
Reergue-te e busca os valores interiores. Confia em ti Jenifer!”
Ela parou. Olhou para o público que a amava e que a seguia como
um exemplo. Enxugou as lágrimas. Levantou. Com uma das mãos
pegou o microfone e disse: “Queridos fãs, hoje me despeço de
vocês. Não mais cantarei. Não mais seguirei essa vida. Quero um
pouco de paz”. Ao dizer isso, retirou-se sem dar satisfações
para ninguém. Os músicos boquiabertos ficaram sem reação. O
público nada compreendeu. Mas no fundo sabiam que haviam perdido
o seu ícone.
Mais tarde, nos dias que se seguiram, os empresários, furiosos,
exigiram que ela voltasse, que honrasse o contrato assinado, sob
pena de pesadas multas. Mas Jenifer não voltou atrás. Aceitou as
penalidades impostas pelos dirigentes da banda. Perdeu quase
todos os bens materiais que possuía. O seu nome foi
ridicularizado na mídia. Mas ela não se importava mais.
Algumas semanas depois, usando um vestido rosa bem simples, com
os cabelos presos e óculos escuros, e com apenas uma mala de
mão, foi até um terminal rodoviário e comprou uma passagem. Iria
de ônibus para a cidade dos seus pais, dos seus verdadeiros
amigos e de Pedro. Queria muito vê-lo, abraça-lo, sentir um
pouco de amor. Queria ver os seus pais, deitar no colo deles e
chorar. Nunca mais sairia dali, pensou.
Estava agora pobre, mas no caminho da paz. Um novo começo!
|

|