Mural da SEB

Mural SEB no Hospital Santa Catarina

por Chirley Santana
Assessoria de Comunicação


De 22 de julho a 5 de agosto, no saguão da Digest, acontece mais uma exposição no HSC. Desta vez você confere poesias de alguns membros da Sociedade Escritores de Blumenau (SEB, fundada em 13 de outubro de 1999 e decretada entidade de utilidade pública municipal pela Lei nº 5828/04. As poesias expostas são de autoria de Isabel Mir, Ivo Gomes de Oliveira, Ilka Bosse, Maria de Lourdes Scottini Heiden, Terezinha Manczak, Fátima Venutti, Jairo Martins e Tchello d´Barros.

 

PAIXÃO INFANTIL


Uma paixão inundou-me o coração.
Linda, delicada e charmosa,
Uma bolachinha gostosa.
Amei-a doidamente em segredo...
Puro medo de me declarar
Apaixonado platônico,
Casto tal uma imagem de santo
Vivi o desfecho fatal.
Sacrílega manhã daquele dia azíago,
Espio o padeiro passando e minha amada ao seu lado
Com aquele sorriso safado de quem viu passarinho verde.
Menos mal, hoje compreendo a razão dessa dor,
O feliz fazedor de pães sabia – melhor do que eu - amassar o amor.



Ivo Gomes de Oliveira (igdeol)





NOVO CÉU


Na Primavera alvissareira do infinito
Renovam-se os versos que escrevi contente
E um jardim florido de vivas letras
Materializa a imagem que me vem à mente.

Sou velho escriba lançado ao lago ardente
De um inferno infesto de enxofre e fogo
Para morrer junto aos rústicos e antigos textos
E renascer nas letras de um poema novo.

Assim, debruço-me, dedicado e atento,
A registrar na lousa sagrada dos meus dias
Os sinais expressivos deste bom alento.

E a visão apocalíptica de um novo tempo
Transmuta as dores da morte em alegrias
E a sede da beleza em fonte de alimento!



Ivo Gomes de Oliveira (igdeol)








CAMINHO

Transito seguro meu caminho.
(a vereda do destino é imposta a todos os viventes)

Sigo o rumo perfilado
a sós com a minha sombra,
sem ofuscar a estrelas,
sem melindrar os medíocres.

E em cada pedra que tropeço
colho adornos ao meu próprio eu.

Nessa íngreme trilha não há retornos
e o tempo não deixa espaço para cicatrizar feridas.

A chegada é irrevogável...
No ponto mais elevado
aguarda-me a justiça, sem alarde.



Ivo Gomes de Oliveira (igdeol)




TROVAS (I)


Uma trova, duas trovas.
Canto quantas você quiser
Para ver nessa face nova
Um sorriso de mulher!

O teu sorriso, menina,
Entusiasma o meu viver
O meu coração desatina
E meu juízo põe a perder!

(Menção Especial, III Jogos Florais de Balneário Camboriú/SC-2008)


O sorriso é alegria
Para qualquer ser vivente
E transmite energia
Ao mais humilde indigente.


Ivo Gomes de Oliveira (igdeol)







TROVAS (II)


A lágrima que em ti vejo
Sorrateira, disfarçada,
Vem da fonte do desejo
De beijar e ser beijada!

Essa lágrima que vejo
Na tua face mimada,
São prenúncios do desejo,
De amar e ser amada!

As lágrimas da alegria
São uma faísca de luz,
Do amargor e nostalgia
As duas peças da cruz.


Ivo Gomes de Oliveira (igdeol)


 

 

 

APELO DE ANCIÃ


Leia em meus olhos tristes, o dizer
Decifre em lábios mudos, o querer
Ouça silenciosamente...
O sigilo do clamar do meu apelo
Do querer viver mais um pouco
Ou novamente...
O gosto da vida, do tempo
Do querer revivê-lo
Ande comigo na lentidão
Com meus passos urge o tempo
Na escuridão
Passo a passo, passos passantes
Por trilhas inseguras, distantes
Nocauteada a flexibilidade
Pesa o peso, pesado!
Pesando a idade
Paciente, dependente da vontade
Buscando migalhas da felicidade
Qual aranha tecendo sua teia
Aguardo apenas um fio
Da bondade alheia
Ainda, eu sei, não é o fim
Mas é mais ou menos assim... Cambaleante...
Hesitante seguir parado
Imaginários passos
Com esforço dobrado
Há em mim pouca vida,
Mas existência que exige, quem sabe,
Um pouco de paciência!
Não posso comprar compaixão
Nem quero comprar o seu coração
Preciso sim, amparo hoje e amanhã
Enquanto viver ainda
Serei sempre...
ANCIÃ


Ilka Bosse - Bailarina das Letras


 

CONQUISTA (página um)


Deixe que eu possa
Seu coração conquistar
Farei misérias sem me preocupar
Mesmo que para isso for preciso
Inventar mil coisas, até perder o juízo!
Saltar de alturas ou da cachoeira
Aparar água com a peneira
Treinar capoeira
Ou qualquer outra besteira
“Plantar bananeira”
Viajar agarrada em asas de gaivotas
Dar número sem fim de cambalhotas
Forjar redemoinhos, desviar caminhos
Voltar a ser criança, pelo chão rolar
Na gangorra balançar, pirulito chupar
Fazer bolhas de sabão
Dançar cirandas
Girar para todas as bandas

Ilka Bosse - Bailarina das Letras





CONQUISTA (página dois)


Só para você nunca mais partir
Ir para muito longe e assim me ferir.
Farei qualquer coisa para você ficar
Algodão doce, pé-de-moleque...
Usar mini saia, tomara que caia
Abanar o leque...
Trajar vestido rodado
Cheio de rendas e bordado
Trança e fita no cabelo
Maria Chiquinha para prendê-lo
Também farei um rabo de cavalo
Usarei elástico forte para amarrá-lo
Pó de arroz na face, brinco, sapatilhas
Mastigarei pastilhas
Esmalte colorido, bracelete florido
Passar batom vermelho, ruge na bochecha
Você não terá motivo para queixa
Farei tudo para você ficar
O que poderei fazer?
Para lhe prender?
Agora gostaria lhe pedir...
Para nunca mais partir!


Ilka Bosse - Bailarina das Letras





TRAPOS e FARRAPOS

A ramagem do silêncio, no frio
Disfarça os sons, até o assobio
Grade enferrujada enramalhada
Na varanda esquecida, sombria, sem nada

Na boca das ruelas bocejam sonhos em trapos
Que já foram sonhos no subúrbio, agora são farrapos
Brincam crianças no estúpido abandono
“Paupérrima realeza”, braços estendidos, sem dono

Lágrima escapa ardente pela face triste
Clamando... Amor!
Na incerteza que este alimento existe
Ronda sombra, foge lânguida memória
Cavalga vazia...
A esperança de ter apenas um dia de glória

Dorme-se desacordado ou acordado
Dorme-se de qualquer jeito, desanimado
Com o estômago em piruetas, embolando
Durará esta dor da fome, até quando?

Ergue-se o tecer de alertas a todos os instantes
Igual lona de circo, nas mãos dos governantes
Quando desarmada não abriga, nem traz alento
Realidade desmiolada...
Edificando um cárcere ambíguo
Sem futuro, sem educação, sem sustentação
Continuam os sonhos
A fome, os trapos e farrapos


Ilka Bosse - Bailarina das Letras
 


CATEDRAL


O sol oculto, cochilante
Dourada manhã, ainda distante
Timidamente, o dia desperta
Pacata cidade acorda alerta!
O “DIM DOM”
Mesclando seu som com alegria
Ao canto dos pássaros contagia
A “maciez” deste momento
Conforta e traz alento

Fitando a antiga CATEDRAL
Que de mansinho
Acolhe a chuva matinal
Deleitando ao telhado envelhecido
Semelhante aveludado tecido
Pousa nele o tranqüilo rouxinol
Alegra-se o saltitante pardal.

Contagiante sentimento
Meu ser invade
Desnuda de toda
E qualquer saudade
Banhada em meu próprio sorriso
Vivo este momento intenso e preciso
Ver cascatas das plumas dos pardais
Chuva em gotas
Qual pingentes de cristais.

Catedral que antes parecia esquecida
Agora envaidece na paisagem a vida
Árvores estendendo
Suas sombras às flores
Jardins dançando
Agitam suas múltiplas cores
A revoada das andorinhas!
Que beleza!
É belo este quadro
Inserido na natureza.


Ilka Bosse - Bailarina das Letras
 

 

 

A ferro e fogo


Antes que entrem os biombos,
o piso e a pintura das paredes,
que entre a poesia.
Antes que entrem os objetos,
estantes e fogos de artifício,
que entre a poesia.
Antes que entrem as comparações,
os saldos e a matemática,
que entre a poesia.
Antes que entrem as traças
e os jornais que vão parar no lixo,
que entre a poesia.
Antes e acima de tudo, a poesia.
A palavra.
O humano uso da palavra.
Batismo, a ferro e fogo.


Terezinha Manczak




Rotina


Sexta-feira,
varro uma teia de aranha no teto.
Penso na hipocrisia,
prolífera,
sociedade de insetos.

Sábado,
escolho os fios e as palavras,
escrever é a rotina do poeta.
Entre urdume e trama, a textura.
Sou tecelã de versos e teares.


Domingo pela manhã,
leio poemas na cama.
Uma aranha sobe pela parede
e recomeça outra teia.

A poesia de Rogério Salgado
toca - me como a brisa, arrepio.
Intromete-se entre os fios de meus cabelos.

Pela trama aberta das cortinas,
o sol estica seus dedos de luz
e urde grafismos sobre meu corpo.

A solidão é mera palavra entre as fronhas.

Terezinha Manczak







Terra batida


prenúncio de verão
oceaniza-se em meu corpo

florescem flores brancas
grinalda em meus cabelos

o sítio que habito
a casa vazia que carrego
não são nada
diante dos panos que teço

esquecimento:
todo violeta e lua.

Terezinha Manczak




IGUALDADE
A
PAZ
SE FAZ
COM
TRAÇOS
SIMPLES
E COM CALMA

DESARMADOS
EM VÔO LIVRE
SOMOS IRMÃOS

IGUAIS EM TUDO
SANGUE CORPO E ALMA
A MORTE OU A VIDA NAS MÃOS

Terezinha Manczak
 

 

 

A FUGA (página um)

Fujo de um país insano
Onde os pais matam seus filhos
Fujo de um país odioso
Onde os filhos negam os pais

Fujo de um país absurdo
Governado por leis
Algozes do futuro
Juízo privatizado

Fujo de um país imoral
Sem consenso
Onde o ouro é Deus
A virtude o mal

Fujo de um país sanguinário
Cárcere social
Predador de cidadãos
Destino brutal

Fujo de um país do terror
Habitado por vampiros
Que sugam as esperanças
Dos homens em torpor

Fujo de um país enganador
Fingido de santo
Ornado de prantos
Andar errante

Isabel Mir

 


A FUGA (página dois)

Fujo de um país patético
Que escraviza e amordaça
O povo dócil e submisso
De fé sonolenta

Fujo desse país pela morte
Que governa impune
E atordoa a mente
De estranhas gentes

Fujo de um país de pesadelo
Sonhando caminhos e saídas
Como uma cidadã perdida
Entre a vergonha e culpa

Fujo de um país absurdo
Que domina a razão
Deserda a paixão
Nega a emoção

Fujo de um país surdo
Que não ouve os gritos
Do povo que o ama
E o abandona


Isabel Mir




Gota

Gota d’água
Mundo refletido
Uma irmã
Andante
Casa em casa
Gosto amigo
Uma irmã
Feita gota d’água
Refletida
Cheia de vida
Transparente
Uma irmã
Feita gota d’água
Úmida em minha boca
Dispersa e líquida
Beija-me
Feito gota d’água

Isabel Mir
 

 


Hoje não sei quem sou
Amanhã também não saberei
Preciso retornar
Observar mais detalhes
Perceber na passagem das retas
Rapidamente desenhadas e alteradas
Quando se tornaram tortuosas
Nas memórias do ontem
Que hoje parecem
Nunca terem existido

Hoje não sei o que quero
Sei que não é o que passou
Ontem fui um fato
Feita de pequenas palavras
Referência absurda e absoluta
Feita de valor de troca
Transformando a noção de vida
Em ordem de palavras certas
Ditas em momentos errados
Que ficaram no descaso

Amanha também não saberei
Sentir os pequenos detalhes
Definidos em suas semelhanças
Absolutamente essenciais e sombrios
Quando os segredos escapam
Do seu reino secreto e soberano
No silêncio do esquecimento
Hoje não sei quem sou
Porque nada restou para amanhã
Que mereça ser lembrado


Isabel Mir




PROFANOS


O livro
Da estante
Foi retirado
Aberto
Foi folheado
Palavras
Assustadas
Corriam
Pelas páginas
Escondendo
Segredos
Nos versos
De amores
Profanos


Isabel Mir

 

 

Era uma vez um homem, um homem só.
Como todos, ele também era pó.
Que resolveu ser ele mesmo,
Enquanto outros andavam a esmo.
Era uma vez um homem, um homem só.
Que por ser ele mesmo, foi mais que pó.
Que sendo o mais justo, soube ter dó.
Que disse tudo o que sentiu, falou tudo o que viu.
Que fez tudo o que disse:
Um homem que viveu e morreu pelo seu sonho.
Que quis a justiça igual e amou também os injustos.
Que falou a verdade a todos e soube perdoar os mentirosos.
Pois ele tinha um grande sonho...
Era uma vez um homem, um homem só.
Que por amar foi odiado,
Que por ser justo foi injustiçado,
Que por fazer o bem, recebeu o mal,
Que por ser fiel foi traído,
Que por querer abraçar foi açoitado
E por querer salvar foi perdido.
E ele continuou a crer no seu sonho.
Quis o bem espiritual,
Foi tratado como animal.
Foi amigo, sincero, direito e leal.
E por isso foi trocado por dinheiro.
Mas ele tinha um grande sonho.
Era um homem, um homem só. Muito mais que pó.
Que disse a verdade, que amou a verdade e que fez a verdade.
Um homem só. Que padeceu da dor.
Bem mais que pó. Que falou de amor, que deu amor.
HOMEM!

Jairo Martins




SABIÁ (I)

Canta sabiá do bom agouro
Que teu canto é logradouro
Pra expiar as minhas mágoas.
Canta sabiá que é vindouro
No teu canto um rio de ouro
Em teu trinado ricas águas.
Canta sabiá o trilo agreste
Enquanto a mata se reveste
Em tom alegre musical.
Canta sabiá que já me deste
O doce gosto tão silvestre
Vem cantar no meu quintal.
Canta sabiá preta plumagem
Que a vida é uma viagem
Toda feita de beleza.
Canta sabiá nessa paisagem
O teu canto é de passagem
E guardarei sua riqueza.
Canta sabiá uma vez mais
Que aqui serei capaz
De aprender a cantoria.
Canta sabiá manhãs florais
Que teu canto é de paz
E eu só quero harmonia.
Canta sabiá na minha eira
Melodia tão fagueira
Que eu só quero escutar
Canta sabiá na mata inteira
O teu canto é de primeira
E eu até quero voar!

SABIÁ (II)

Pousa sabiá encorujado
Neste ramo aí parado
Que eu canto para ti
Pousa sabiá aí calado
Se do canto estás cansado
Que o descanso é por aqui
Ouve sabiá meu assobio
Melodia que a ti crio
Já que agora é minha vez
Ouve sabiá não é tardio
Este dia por um fio
Nesta hora que se fez
Fica sabiá adormecido
O meu canto é agradecido
E me deixa assobiar
Fica sabiá que faz sentido
Que assim tenhas dormido
Cantarás ao clarear
Dorme sabiá até amanhã
Sente a calma noite irmã
Que eu fico assobiando
Dorme sabiá que de manhã
O teu gorjeio com elã
Estarei só escutando
Sabes que aqui não tem gaiola
E também ninguém te amola
Neste teu adormecer
Sabes que a Terra é uma bola
Liberdade é mestra mola
Meu impulso de viver!

Jairo Martins





ALIVIAR UMA DOR

Que serviria à dor que sinto, como anestesia?
Algum lenitivo seria curativo à minha agonia?
Valho-me do escrever, talvez em desabafo,
Só para ver se destas dores me safo.

Que não murchem no peito tão lindas flores
Brotando macias, com perfume perfeito.
E em negros dias, suas múltiplas cores
São doces estrias que tecem meu leito.

E se agora a tristeza lhes toma o lugar,
Talvez seja grandeza este meu suportar.
Pois não me falta alegria de poder enxergar
Que está na poesia o elixir de curar.

Assim é que levanto, vou correndo viver,
Enxugando meu pranto neste pobre escrever.
E dedico este canto que saí a cantar,
Para quem sofre tanto também se curar.

Jairo Martins






ÂNSIA DE AMAR

Mesmo que seja uma ânsia esperar por ti,
ansiarei.
Mesmo que seja viver na saudade,
aguardarei.
Porque é melhor sentir tua falta
do que nada sentir.
Porque é melhor esperar
do que viver desesperado.
Porque é melhor amar um sonho
do que não tê-lo sonhado.
Porque é melhor amar e não ter,
do que não amar o que se tem.
Porque é melhor te ver um só dia em cada cem
do que não existires em nenhum dos meus dias.
Porque é melhor contar nos dedos as alegrias
do que viver carregando um punhado de tristezas.
Porque são melhores as belezas dos instantes
do que dias constantes sem esperar ninguém.
Porque é melhor viver em ânsias
do que a morte de não ter anseios.
Porque é melhor ter o amor dentro de si
do que de amar não ter meios.
Porque é melhor saber-se vivo sonhando contigo,
do que viver o castigo de não te sonhar.


Jairo Martins




PÔR DO SOL ÀLMA

Indeléveis carícias de véu,
Como que amainando a sede
A verterem rumores do céu,
Dissolvem a frágil parede.

No balanço da vida que é tênue,
Voltam-se para dentro os olhares.
Abre-se num portal o perene:
Visada a frutuosos pomares!

Esvoaça o insólito fulgente
Amordaçado em peito ardente,
Num sol que foge ao poente.

Envolta em névoa solidão,
Inequívoca segue a visão,
Evocando pleitos de emoção.

A Flâmula esparge de si
Cores do grande arco-íris.
Não é longe esta terra daqui,
Bandeira real se a vires.

Trinados de pássaros a cantam,
Nas flores deita suas cores.
Vôos de aves a indicam,
Suas frutas têm todos dulçores.

Que se perca o sábio juízo,
Pois bem mais de que isto é preciso
Para ascender a este paraíso.

E, se o branco sorriso avistares,
Sê bem-vindo ao te aproximares
Da terra dos Avatares.

Jairo Martins
 

 


LOUCURA POÉTICA

Um pingo de chuva caiu...
Não era um pingo qualquer
Era a asa de um querubim,
Eternizando-se em mim.

Um raio de sol me tocou
Fogo, magia, amor...
Um arco-íris de luz
Dentro de mim se formou.

Momento de puro enlevo...
Poesia pedindo passagem.

Maria de Lourdes Scottini Heiden





FOLHA NO AR...

Sou uma folha solta a bailar...
Livre no ar.
O vento me leva,
O vento me traz.
Pra lá e pra cá...
Sem questionar coisa alguma,
Sigo a rodopiar.

Mas a folha que sou,
Às vezes protesta,
Com ares bravios de quem se agiganta...
Torna-se inquieta!
Não aceita o domínio,
Foge do vento,
Oh! Que fascínio!
Livre afinal!

Maria de Lourdes Scottini Heiden




A CRISE

O mundo está em crise...
E daí?
Sigo caminhando
Plantando sonhos, semeando amor
Para vestir o dia e dissipar a dor.
O mundo está perdido...
E daí?
Sigo procurando a saída.
Segurando o fio da vida,
Para achar a direção.
O mundo está sendo destruído...
E daí?
Eu prossigo construindo...
Passo a passo, pedra a pedra,
Acordando o povo
Pra começar de novo.
O mundo está sem luz...
E daí?
Eu acendo a chama...
Toco as estrelas, enlaço a lua
Desfaço o escuro das consciências humanas.
O mundo está sem Deus...
E daí?
Sou tua irmã... És meu irmão...
Segura minha mão, vamos semear a palavra
E reatar o acordo com o Verbo da Criação.

Maria de Lourdes Scottini Heiden







HÁ COISAS

Há coisas em minha vida
Que não consigo explicar.
Umas têm gosto de mel
Outras nem gosto têm.

Não sei o que vou fazer
Com isso que trago em mim.
É muito aroma de flor
E muita saudade também.

Há coisas em minha vida...
Miragens, castelos, poesia
Que se misturam aos sonhos
E se desfazem em meus dias.

Uma coisa, porém, é certa...
Por mais que eu insista,
Há coisas em minha vida
Que não consigo explicar.

Maria de Lourdes Scottini Heiden





PASTORA

Sou pastora da noite calma,
Forasteira da esperança,
Registro no âmago d’alma
Carinho, amor, lembrança.

Sou pastora do destino
Que sorri e me entrega...
A cantiga de menino,
A palavra que enleva.

Sou pastora sem bastão
Nos campos da eternidade.
Não digo sim e nem não
Nem quero a tua verdade.

Sou pastora sem rebanho
Que caminha todo dia
Pelos vales dos teus sonhos
Semeando poesia.


Maria de Lourdes Scottini Heiden


 




À FLOR DA PELE (I)

O Girassol apaixonado
Imitava o Astro-rei
Te amarei eternamente
E jamais te esquecerei

O Cravo estava triste
Pois o sol havia se posto
Vi nas nuvens deste céu
O desenho do teu rosto

O Lírio perto do mar
Inesquecível paisagem
Assim é teu semblante
Em sonho vi tua imagem

Ó Crisântemos divinos
São as flores de um adeus
Jamais morre esta chama
Que me une aos olhos teus

A Miosótis tão singela
Sempre me enterneceu
Estarei junto a ti amor
Sempre sempre ao lado teu

Os Hibyscus perfumavam
O vento do entardecer
Meu coração será teu
A cada vez que bater


Tchello d’Barros


À FLOR DA PELE (II)

As Begônias são a causa
De um jardim tão colorido
Sem teu amor minha vida
Não teria algum sentido

Os Antúrios corações
Lá no jardim à crescer
E nós dois éramos um
Ao chegar o amanhecer

Os Agapantos me olham
Como azuis olhos de Venus
Com afagos e carícias
Assim nós nos amaremos

A Flor-de-Liz e suas cores
São matizes da beleza
Mantemos em nosso peito
A chama do amor acesa

Os Gerânios nos jardins
Ornamentam a cidade
Assim é o nosso amor
Jardim de felicidade

A Gérbera apaixonada
Na primavera nascia
Em meu peito nasceu amor
E renasce a cada dia


Tchello d’Barros




À FLOR DA PELE (III)

As Prímulas elegantes
Como asas de querubim
No céu brilha o arco-íris
Como este amor sem fim

A Adália tão formosa
É tal qual obra de arte
E bate forte o meu peito
Simplesmente por amar-te

As Hortências tão sublimes
Exalam fragrância tão pura
Mais sublime o nosso amor
Feito de afeto e ternura

As Petúnias se destacam
No céu de azul profundo
Te quero muito meu amor
Mais que tudo neste mundo

O Jasmin na primavera
Abriu-se até que enfim
O romance de nós dois
Tem começo e não tem fim

As Acácias abraçadas
Tão juntinhas neste ramo
Olho dentro dos teus olhos
Então digo que te amo


Tchello d’Barros
 



À FLOR DA PELE (IV)

O Amor-perfeito veio
Nascer na tela do artista
E nasceu em nossos olhos
Amor à primeira-vista

As Camélias têm esse ar
De quem vibra de paixão
Escrevo hoje teu nome
No livro do coração.

As Violetas violáceas
Ou da mesma cor do céu
Não acaba este beijo
Com doce sabor de mel

As Margaridas não mentem
Respondem a quem quiser
Perguntei de nosso amor
Terminou em bem-me-quer

A Rosa disse ter visto
Borboletas no jardim
E falou do teu amor
A melhor parte de mim

A Orquídea com seu néctar
Onde pousa o beija-flor
Nesses lábios pousam beijos
Também a palavra amor


Tchello d’Barros




À FLOR DA PELE (V)

O Ipê na primavera
Veste um traje amarelo
Teu amor vestiu meu mundo
De um sonho doce e belo

Ó Tulipa flor tão rara
Tão difícil de encontrar
Encontrei o meu amor
E meu destino é te amar

As Avencas hoje dançam
Ao vento que vem soprar
Essa brisa diz-me algo
Vem teu nome sussurrar

As Bromélias são encanto
Magia de belos matizes
Essa paixão é o feitiço
Que nos faz bem mais felizes

Nos Lisiantus do jardim
Pisca-pisca um vagalume
O teu amor me completa
Como a flor e seu perfume

As Azaléias formosas
Fazem sombra pro besouro
E sem sombra de dúvida
Nosso amor é um tesouro


Tchello d’Barros
 

 

VESTIDO AZUL

O corpo que chama
Declama na aura à alma...
Sussurros de bel-prazer.

As vestes que vestem
Revestem os desejos,
Investem em despidos delírios
Insanos de mútuos desejos.

Na malha que baila,
Ao vento desfila o azul que instiga,
Confundem-se as vozes
Que clamam um último beijo,
O enlace do abraço infinito.

Partida.
Investe, e implora, sôfrega,
Um único respiro de bocas.
O olhar permuta com as palavras
E os perfumes enroscam-se
Nas tranças e tramas de um passado.

A mulher,
Foi-se com os respingos da chuva.
Na madrugada que adentra,
Pela estrada do regresso,
O vestido azul ainda baila
na mente devassa do amante.

Fátima Venutti



MORDAÇA

A nudez que ora castigas
Em trajes lodos e boçais
Suplica o respiro, poro a poro
Geme, incômoda, uma liberdade fugaz

A nudez que ora te agride
E sufoca em pudores sociais,
Rasga-se em pranto, deseja mostrar-se
Inda que presa, sôfrega, em mordaças banais

Mas a nudez que ora condenas
Refletida está em tuas próprias vestes verbais.
Metáfora de tua dor invertida, cunho calado
Grito entalado, teus espíritos rivais

Unge-te, emerge das correntes que te trancam
Rasga teus versos todos e mergulha desgarrada,
Por além de teus infrenes desejos carnais

Gargalha em uníssono com os vômitos que te lançam
E discursa definitivo todo o poder de tua morada
Respira, por fim, o teu troféu: a saliva desses tolos animais.

Fátima Venutti

 


Envelhecer

Uma única imagem
Refletida está.
Um espelho escondendo verdades.

No tempo que deforma Identidades,
Busco nas linhas, flancos e rugas
Metades que os anos me pariram.

Volto e revolto dias e sombras ungem tetos
Num último instante. - Reflexão

Contorço-me em nós que abriguei.
Um grito na consciência
Devolve-me realidades

Nas dores me arrependo.
Na pele áspera e enrugada, penitencio.
Nos sons que me fogem, calo.
Na visão que me falta, sonho.
No peso do corpo que me enverga
E me reduz, salgo o meu fim.

Há um ser refletido pelo espelho
Resgatando caminhos,
Indo de encontro ao tempo
Pelejando avidamente
identidade

Os girassóis envergados no jardim
Dormem sob visão da lua
Dia seguinte haverá sol
Uma nova imagem no espelho
Refletir-se-á


Fátima Venutti
 



SER POETA

Somos pássaros
Alçando vôos inusitados
Buscando sentidos, sentimentos.
Rasgamos ares
Na compreensão do inexpressável,
Mas por demais sentido e comungado.

Talvez,
Também sejamos o vento
Que sinergiza com o pássaro
A visão privilegiada da vida,
Debulhando sons, cores, sinfonias,
Inda mais: todos os sentidos.

Enfim,
Somos a vida,
Materializada nas palavras que sugamos
Do vento, das cores, dos sons,
Mas que por não termos posse
Somos, simplesmente Poetas

Fátima Venutti



CANÇÃO DE NINAR


Encosta tua alma na minha...
E respira
O aroma que este amor transpira.

Recolhe o teu espírito ao meu
E adormece,
Litúrgico, todos os nossos medos.

Respira neste amor o meu aroma...
E transpira,
Tua alma recolhida em mim.

Enamore meu amor, o meu espírito
E contempla,
Todos os sorrisos que nesse sonho
Sou capaz de te ofertar.

Fátima Venutti