Mas o
homem escreve e delira, dia após dia,
Seu teatro infesto, verme e atemporal.
Pelas guias e esgotos centrais enfim
Os olhos inventam e encenam peças.
O olhar acima das mentes se entrega:
“Atire a primeira pedra
Aquele que jamais fez de um único ato
Seu triunfo respirado de pecados capitais”.
Ao centro da praça visceral,
Um pombo arqueia seu peito e negocia
Um discurso na vitrine dos touros surreais.
Dia seguinte o homem vigia
A entrega de seu espelho matinal.
Busca nas páginas descrentes do noticiário
Seu retrato em preto-e-branco, páginas centrais,
Rasga-se em risos e mostra seus ouros todos
Desdenha um rival e infla seu peito animal.
Fim ignóbil, soberbo e prostrado
O homem crava-se, disforme e cego
Na lápide dos grandes vermes sociais.
PROCISSÃO DE
FÉ
Fátima Venutti
Sobre o prato vazio,
Insana fome debruça
Meus pés descalços
Sangram paredes
No estômago.
Traçado Côncavo
No rilho da miséria.
Um ronco corrói
Dignidade.
O ácido brota e evapora
No vácuo do olhar.
O veneno da fome
Saliva sem piedade
Sobre o prato vazio
A fome geme
Maculando o pão,
Da palavra,
Da fala,
Do perdão
De todos nós.
Esquecido na mesa,
Pós vento do tempo
Do prato, hoje o pó.
Da fome, o pó do homem.
Da insanidade,
A liturgia da palavra.
VESTIDO AZUL
Fátima Venutti
O corpo que chama
Declama na áurea a alma...
Sussurros de bel-prazer.
As vestes que vestem
Revestem os desejos,
Investem em despidos delírios
Insanos de mútuos desejos.
Na malha que baila,
Ao vento desfila o azul que instiga,
Confundem-se as vozes
Que clamam um último beijo,
O enlace do abraço infinito.
Partida.
Investe, e implora, sôfrega,
Um único respiro de bocas.
O olhar permuta com as palavras
E os perfumes enroscam-se
Nas tranças e tramas de um passado.
A mulher,
Foi-se com os respingos da chuva.
Na madrugada que adentra,
Pela estrada do regresso,
O vestido azul ainda baila
Na mente devassa do amante.
PÓS MORTEM
Fátima Venutti
Seladas falas
De sobras veladas
Em cruzes suspensas
Incógnitas
Rezas em coro
Diversas
Valas cobertas
De corpos esquecidos
Em manhãs tempestivas
Incógnitas
Solidão em versículos
Completa
Lamacentos retratos
De memórias perdidas
Em funerais submersos
Incógnitas
Paisagens em desalinho
Transformadas
Súbita avalanche
De lágrimas castigadas
Em veias extirpadas
Incógnitas
Soldados em procissão
Retalhada
Metáforas vidradas
De pães amanhecidos
Em comunhão indesejada
Incógnitas
Fome de sonhos
Destilada
Abrigos repentinos
De camas dotadas
Em clausuras engolidas
Incógnitas
Lápides sangrando
Ignoradas
Verdades incompletas
De papéis amarelados
Em suplícios abafados
Incógnitas
Pretérito dos verbos
Améns.
......................................................................
O galope do
tempo.
Felipe Gruetzmacher
Fluxo
inexorável.
Corrompe sentimento.
Ler, coisa adorável.
Ler, hábito necessário,
hábito perdido.
passa ano, mês e aniversário.
Já envelhecido,
idoso não vê a graça.
Passa, tudo passa.
Dizem à juventude
que ler é virtude.
Descobre literatura.
Jovem aprimora cultura.
E quanto ao idoso?
Esquece do quão saboroso
pode ser um livro, poema ou conto.
Esse é o ponto.
A arte precisa descobrir a geração passada.
Viver sem arte, desiludido.
Existência cansada.
Ler, hábito reaprendido.
Viver readquirido.
Quando digo
que a mata é um labirinto
Felipe Gruetzmacher
Eu não minto
Caçador, lenhador
Ou qualquer invasor
Podem ficar presos naquelas trilhas.
Mesmo percorrendo milhas,
Jamais acharão a saída.
Ficarão o resto da vida.
Tudo culpa do Curupira.
Conhece essa lenda caipira?
Curupira, um anão de cabelos de fogo
Que engana com seu jogo.
Tem pés virados para trás.
Os tolos vão atrás
De suas falsas pegadas
Durante uma caçada.
Cria ilusão
Para desviar da direção.
Seu assobio engana e orienta
O caçador que se movimenta
Para o lugar errado.
Mas não faz isso porque é malvado.
Faz para proteger a natureza, o ambiente.
Faz o bem, somente.
Ataca para proteger na época de procriação,
Quando os seres estão em amamentação
Ou para impedir o corte de lenha desnecessário.
Trazer um equilíbrio necessário
É a missão desse nosso protetor.
O planeta precisa de mais valor.
Revisão de Textos:
Jairo Martins