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Nelson Valente
Biografia
Nelson
Valente é jornalista, professor universitário e escritor,
pesquisador nas áreas de psicanálise, comunicação, educação e
semiótica. É mestre em Comunicação e Mercado e doutor em Comunicação
e Artes. O autor também é especialista em Psicanálise,Teoria da
Comunicação e Tecnologia Educacional e já publicou 11 (onze) livros
sobre o ex-presidente Jânio Quadros e outros sobre educação,
parapsicologia, psicanálise e semiótica.
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Publicações
Lançamentos
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"Teoria Lógica dos
Signos"
A pretensão de apresentar a
Semiótica em poucas linhas pode ter resultado em reprováveis
simplificações. Um campo de conhecimento tão amplo e complexo exige
certamente um espaço-tempo maior que o presente, motivo pelo qual este
alerta introdutório faz-se necessário. A investigação semiótica abrange
virtualmente todas as áreas do conhecimento envolvidas com as linguagens
ou sistemas de significação, tais como a lingüística (linguagem verbal),
a matemática (linguagem dos números), a biologia (linguagem da vida), o
direito (linguagem das leis), as artes (linguagem estética) etc. Para
Lúcia Santaella, ela "é a ciência que tem por objeto de investigação
todas as linguagens possíveis" (1983:15).
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"Não Adapte. Adote. O
Livro do professor!"
O livro.Não adapte.Adote. O livro do
Professor! . Intermedial Editora, o autor Nelson Valente, visa
oferecer um panorama geral da História da Educação e da Pedagogia
desde a Antigüidade Clássica (Grécia e Roma) até a Modernidade com a
finalidade de estabelecer as relações entre o passado e o presente
em termos de teorias e práticas pedagógicas, possibilitando ao aluno
(a) e ao professor(a) e ao público em geral a compreensão da
Educação sob a perspectiva histórica e a compreensão da Educação
Brasileira como parte da educação ocidental e como fenômeno
historicamente situado. A História da Educação explica, descreve em
sucessão cronológica a vida real da educação ( fato pedagógico –
conjunto de atividades planejadas pela escola), assinalando
cuidadosamente os preceitos jurídicos (política educacional) que
trataram de regulamentá-la, assim como as doutrinas e técnicas
educativas, que buscaram interpretá-las e realizá-la do melhor modo
(teoria e técnica educativas). A legislação educacional sempre foi
tema de preocupação para diversos segmentos da organização e
administração escolar do sistema educacional brasileiro. Sob os
aspectos de organização e administração escolar, a legislação é
ainda importante porque traduz a filosofia e a política educacional
subjacente a cada país. A lei, entendida como forma normal pela qual
o Estado estabelece regras de convivência dotadas de significação
imperativa, procura assegurar coesão e equilíbrio de todo o corpo
social. A Didática é a ferramenta cotidiana do professor e, como
tal, está em contínua evolução, razão porque os conteúdos deste
livro destinam-se não só a reforçar os conceitos fundamentais dessa
disciplina mas, sobretudo, aperfeiçoar e atualizar o professor pelo
conhecimento de novas técnicas que possam vir a ser utilizadas em
sala de aula. Como toda ciência, a Didática é aberta às novas
descobertas que enriquecem o saber humano. Assim, a Didática
contemporânea faz ver ao educador certos conceitos novos ou novas
abordagens desses conceitos, por isso é sempre importante para o
educador estar se reciclando, enriquecendo-se. |
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"Mito, Sonho &
Loucura"
Mito, sonho e loucura – Intermedial Editora - Em tempos atrás,
todas as doenças eram consideradas como produzidas pelos espíritos maus,
inimigos do homem, ou como meros efeitos dos pecados humanos. Estes eram
considerados como causas morais geradoras de efeitos físicos, que eram
as doenças corporais, interpretação espiritualista baseada no primeiro
capítulo da Bíblia, onde se atribui ao primeiro pecado a situação humana
atual com todas as suas imperfeições e deficiências. Quando Jesus curou
o cego de nascimento junto à piscina de Betsaida, os fariseus e escribas
lhe perguntaram: "quem pecou, ele ou seus pais?", aludindo claramente à
causa da sua cegueira. E esta é ainda a opinião de muitos
espiritualistas, tanto das religiões ocidentais como, principalmente, os
seguidores da filosofia oriental que crêem na reencarnação. O homem
sofre doenças e provações físicas e morais para purgar seus pecados e
progredir espiritualmente, etc. Especialmente certas doenças ou
distúrbios eram interpretados espiritualmente, como a epilepsia, tida no
Egito antigo como "mal sagrado" ou possessão divina, e na Judéia e
outras regiões como possessão diabólica. As antigas trepanações
egípcias, assegura-se que eram feitas com o intuito de abrir uma saída
aos espíritos malignos, apossados do doente e causadores daquele mal.De
igual modo eram considerados por muitos os distúrbios histéricos, os
neuróticos e o próprio sonambulismo, cuja verdadeira natureza lhes era
desconhecida.
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"Jânio da Silva Quadros: Crônica de
Uma Renúncia Anunciada"
0 Jânio da Silva Quadros repetiu um gesto que já havia esboçado pelo
menos onze vezes, perdeu a Presidência e lançou o País numa crise que
culminou com o golpe de 1964.
Corri bibliotecas, colhi
depoimentos, li e reli centenas de revistas e jornais antigos e
conversei muito com o próprio personagem. O ex-presidente Jânio da Silva
Quadros sempre foi comigo por demais atencioso, relatou-me fatos que
hoje tenho por obrigação passar através deste livro.
De todos os políticos que
conheci, como pesquisador e autor de dez (10) livros sobre o
ex-presidente,jamais convivi com pessoa tão inteligente e de
personalidade tão complexa. Conhecia exatamente onde estava a tênue
fronteira entre o pitoresco e o ridículo. Trabalhava a sua imagem sobre
o fio da navalha.Por isso, foi o mais inusitado fenômeno da política
brasileira, presença carismática junto ao povo e aos meios de
comunicação. Desde que foi eleito vereador, em 1947, o futuro presidente
já tinha por hábito escrever a colegas e subordinados. Foi por meio de
uma carta escrita por ele em 1961 e entregue ao Congresso Nacional que
Jânio deixou a Presidência. Para a renúncia, há mais de dezoito versões
diferentes. As minhas pesquisas indicam que o ex-presidente Jânio da
Silva Quadros tentou renunciar pelo menos onze vezes nos mesmos moldes e
uma tentativa de deposição em toda a sua vida pública.Para não
desmerecer sua biografia, recheada de renúncias, também desta vez Jânio
abandonou a Prefeitura dez dias antes de completar o mandato, viajando
para Londres. E os últimos dias de governo foram administrados por seu
Secretário de Negócios Jurídicos, Cláudio Lembo (ex-governador do Estado
de São Paulo). |
Textos
Santo Pecado
NELSON VALENTE*
Noite fria e chuvosa. O vento é suave como a brisa a entoar nas ramagens
e nas frinchas das venezianas, a canção da tristeza e da saudade.É a
mística sinfonia da natureza.
A igreja imponente no alto da colina, iluminada pelos relâmpagos,
proporcionando lascas e aços espelhados no horizonte sem fim. Dentro da
igreja, a amargura: um estupro.
Alguns anos depois...
Amanhece...aí pelas onze, bateu à porta do seminário um rapaz que há
tempos andava à cata de emprego. Como não era hábito abrir-se a porta a
qualquer, Frei Bonifácio olhou pelo buraquinho.
Disse que queria falar ao Diretor ( sabia lá o nome do cargo ?) e foi
levado à presença do dito cujo, com visível satisfação. Aquele, de
comovida aparência, deixou-se beijar os cordões e declarou que realmente
lá precisavam de alguém. Na cozinha pelo menos Napoleão, o cozinheiro
chefe, queixava-se há bocado do excesso de trabalho.
Indagado, como era praxe, sobre a sua origem, etc...e tal, soube-se que
era de parcos recursos, filho mãe solteira, que embora com ela não
vivesse, andava saudoso e muito. Como soubera do emprego questionaram,
mas a inocência das respostas nada tirou nem acrescentou.
Dia seguinte lá estavam de emprego novo. Feliz, Evandro, nome sonoro, a
cara não era de todo má. E Ademias os ares santos do lugar poderiam
toma-lo melhor. Tiritando de frio (era inverno grosso), espaventou-se
seminário adentro, deixando a vida a correr atrás de si, lá fora, assim
que o frade o mandara entrar.
Freqüentemente dado a introspecções, não sabia bem porque sua alma,
sentia-a dilacerada de uns tempos para cá. Trocava-se as bolas, mal
silabava o Pai-Nosso à noitinha arrumava pretextos, dissimulava (será
isso ódio? Amor?). Não sabe nem quer saber. Quase nem percebe o
blém-blém do sino que o desperta.Ouve uma voz suave tem ciúmes da paz.
Era tudo o que esperava. Podia ter ido para outro lugar, mas aquele, não
se sabe bem porque, fora o mais indicado.
Uma voz chama-o com êxtase sobe ao patamar, confiando o frade um sorriso
empalidecido e ensaia algumas palavras. O que consegue é um bom dia
sufocado.
Atravessam os claustros, o céu baixo e cinzento, procura abrigar-se na
blusa desgastada que a mãe lhe tecera. Torce-se dentro dela, como os
caracóis quando amolados. Alguém desce as escadas do primeiro andar.
Sente um frio no cangote, mas o clima cheira a santidade e isto o
fortifica. Ademais, a limpeza, o rafiné,o todo no lugar, a resina dos
pinheiros excitam-no mais e mais. Tenta outras excitações, mas não
resiste à curiosidade de, por instantes, esticar as pestanas até uma
janelinha indiscreta que rasga seu esperar uma parede amarelecida.
Mexe com botões e os enche de perguntas, tirando-os e recolocando-os nas
casas, e continua a seguir o Frei Bonifácio, que bochechudo mais parece
uma moranga madura. Bate uma saudade da horta da mãe!
Na sua dispersão, perdera até o frio, aquecera-se mais, com satisfação
observa que chegaram. Entram na cozinha e então, rompendo-lhes as
inibições e numa simplicidade familiar, sorri ao cozinheiro chefe.
Ele, os olhos estatelados, corresponde – “Anda, ajudar! A gente precisa
se entender. Tem muita coisa pra você já ir fazendo”, disse-lhe
Napoleão.
Há qualquer coisa nele de forte que satisfaz Evandro. Fica ali como se
protegido, de repente, e cinco minutos depois já descasca os inhames
para a sopa.
-Que é que trouxe aqui?
A vontade de trabalhar. Talvez o fascínio de um lugar como este. Não sei
porque, mas conventos e padres sempre me atraíram. Invejo os frades, sua
cara de alienados, sempre de bem com a vida, podem exigir se quiserem o
que quiseram, em nome de uma absolvição. Podem ‘beber e comer como
abades’(rindo-se), e não precisam invejar nada o que está lá fora, não
acha?
Não é bem assim, creio eu, às vezes, levantam com cabelo repartido do
lado errado e de ovo virado. Riram-se os dois e continuaram os afazeres.
Lavada a louça, Evandro perguntou a que horas costumavam jantar os
frades. Que às seis, e que hoje, além da sopa, comeriam filé de pescada
e medalhão. O rapaz franziu o nariz.
O certo é que a fradaria, aos poucos, já exauria as potencialidades do
novo habitante, que afinal tinha vinte e um anos e já trouxera um pouco
mais de agitação para o lugar. Ele, por sua vez, não ousava ser
inconveniente.Introduzia-se na intimidade do seminário, ora a ensaiar
alguma observação mais ousada, ora a arriscar uma gargalhada.
Logo de manhã levava um cafezinho com licor ao Frei Bernardo, o manda
chuva, como o chamava; afinal não se trata de convento mendicante!
Sobrava lá o que faltava cá fora!
Percebia que ra bem recebido, mas importante não deixar a prudência.
Afinal certos atrevimentos se expressos de forma correta, pensava ele,
passam a ser lisonja. Por isso, sempre que possível engolia a língua
para não vomitar mais asneiras. Talvez o excesso de zelo o reprimisse um
pouco, mas antes assim.
Já há vinte dias que lá se encontrava e pela primeira vez fora advertido
pelo Frei Teodósio, por ter deixado cair o galheteiro. Como às vezes é
necessário que se retraiam emoções faciais, contraiu-se também por
dentro e calou-se. Calou-se com cara apoplética, o que provocou risos de
outros padres. Percebeu que estava perdoado. Não resistiu também e viu
que já se contaminava com aquela frase que diz “padre ri a toa”.
Não que o galheteiro engrossasse as dificuldades do seminário, mas assim
que pudesse compraria um outro para substituir o quebrado. Além do mais,
pensava Evandro, talvez há muito tempo os habitantes da santidade não
tiveram sentido alguma diferença entre o quebrar ou não o galheteiros,
uma vez que isso não implicasse ter a barriga agarrada às costas por
pança vazia!
Levantaram-se após as orações e, breve aviso de procissão da penitência.
Foi nessa procissão que Evandro teve, que indesejavelmente, castigar-se
com um jejum obrigatório. O que até agora era cor-de-rosa passou a ser
bege. “-Afinal, nem sempre o semáfaro tem a cor que a gente quer!”,
pensou.
Achava demais ter de beber óleo de rícino. De madrugada aproveitou-se do
trabalho que seus intestinos lhe deram para arriscar uma visita até a
adega – “Imunda! Não via limpeza, sabe-se lá desde quando”.Entrou
ingênuo e saiu aguçado. O vinho fazia um efeito celestial! Dormiu como
um anjo e sonhou com prazeres da carne. – “Aí que saudade da
Ditinha”.Mas seus humores faziam cócegas na hora da procissão. Não
entendia nada daquele aparato todo, o que lhe provocava pensamentos
estupidamente hereges. Não que fosse rebelde.Mas se dessem por isso,
seria certamente castigado por Deus e pelos homens. Deduzia que fosse um
dos grandes penitentes, pois fora colocado na cabeça da procissão; mas
sentiu-se importante, porque ali ia o regimento principal e todos
almejavam a mesma coisa: a salvação das almas. Ele, mais que ninguém!
-“Que fedor! É mal daqueles que têm a alma perfumada demais”.
Viu-se interrompido nas conjeturas, quando uma voz apocalíptica mandou
que rezasse o “mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa”. Todos se
ajoelharam. Evandro abalou-se. A mãe ensinara-lhe a rezar a tal oração
quando ia pra cama. Dizia que se a gente morresse dormindo, já morria
perdoado. Achou que tinha chegado a sua hora. Quase chorou de susto. Não
compreendia bem a liturgia, lembrava-se pouco.
Só percebeu que luzia na mão de um dos frades algo redondo e lindo. Era
a custódia. Olhou para aquilo e sentiu-se levitar. Quase entrou em alfa
como um bocó e quase delirou. Acordou com uma mão cabeluda sacudindo-lhe
a cabeça - o “show” terminara, finalmente. Pediu rápido licença para se
retirar. A fraqueza atravessava-lhe os ossos, pelo jejum, e tinha
vontade de dormir. O corpo exangue e flácido escorregava das bases.
Sombras e manchas azuis, verdes, amarelas, quase extintas. Amava aquele
lugar. As pálpebras pesadas imploravam por descanso e o céu de chumbo lá
fora apagava-se mais uma vez. Olhou para o Cristo na parede e só viu a
metade.
Acordou com um torpor inexplicável. Um latinório ouviu-se ao longe.
Ruído de paramentos, pigarros do frade mais velho -Esse já está com um
pé na cova e outro na casca de banana”.Uma lufada de vento o entristeceu
voluptuosamente. A própria carne estaca e friorenta. Lembrou-se do
pacto. Não podia esquecer-se da mãe. Veio-lhe o impulso de fugir. –Ah!
Bons dias de sol, em que jogava bola no adro da igreja. Armar redes,
sentar-se à sombra dos arvoredos!”.
Estremeceu. Levantou-se. O ar estagnado cheirava-lhe mal. Tudo caía em
cima dele. A voz da mãe desabava. E nem as genuflexões, nem os
sinais-da-cruz, as atitudes compenetradas dos padres na capela, o
impediram de dirigir-se àquele quarto, onde alguém quase jazia.
-Mea culpa, mea máxima culpa...”.Tinha medo, mas não podia fugir.
Chegou, parou , entrou.
-Frei Apolinário!”. (o coração fechara-lhe a razão. Descompreendeu a
bondade e a generosidade ).
O Frei curvara-se e parecia murmurar algo.
Num gesto desmedido falou: -“Quem é você e o que quer? Como entrou
aqui?”.
-“A farsa acabou. Se Deus pra você sempre significou luz, pra mim a pra
minha mãe sempre significou treva. Sou filho de seu estupro e sangue de
sua indiferença.”
O sol irrompeu pela porta afora, uma melodia suave no ar. O nevoeiro
dissipara-se e Evandro, o pequeno vingador, desapareceu na escola da
vida, deixando para trás o rastro da morte.
Adeus,
professora.
NELSON VALENTE*
O sol caía a pino sobre a cidade de Novo-Horizonte/SP.
O ano vinha-se caracterizando por tremenda estiagem que assolava a
cidade e, em conseqüência das grandes queimadas que calcinavam vastas
áreas de matas derrubadas para o plantio do café, espessos rolos de
fumaça elevavam-se para o céu, como enormes colunas movediças erguidas
para o infinito.
O crepitar das labaredas destruidoras fazia-se ouvir ao longe como o
gargalhar do ígneo elemento em sua faina irresistível e devastadora.
O sol, impotente para atravessar com seus raios a espessa onda de fumaça
que se estendia pela vastidão do espaço, desenhava no céu cinzento e
opaco o seu disco rubro, porém, sem o brilho característico.
Durante o dia, sob a profunda camada de névoa seca que a recobria por
toda a parte, Novo-Horizonte parecia dormitar, imersa na sonolência das
coisas esquecidas.
O suor deslizava pela face, gotejando pelo rosto sombrio, pálido e
envelhecido, um pouco rubro. As rugas acentuadas demarcavam o sofrido
rosto do velho visitante em meus pensamentos.
O estranho visitante acomodou-se como quis na ampla e confortável
poltrona. Esticou as longas e magras pernas sobre a cadeira que lhe
estava em frente, num autêntico espreguiçamento que lhe fez estalar as
juntas entorpecidas pela postura anterior.
Em seguida tornou a fitar-me atentamente, com aqueles olhos profundos e
perscrutadores, esvurmando os pensamentos mais ocultos e secretos.
Sua voz, grave e soturna, fez-se ouvir:
- Veja, meu amigo, o homem vive matando! – franziu a testa,ficou olhando
para mim um tempo,depois sorriu e disse com a voz rouca:
- O homem é dotado de uma inteligência diabólica, domina a superfície da
Terra e as entranhas do espaço, assassinando impiedosamente tanto os
outros animais como os seus semelhantes.
Calou-se o estranho visitante.
O som cavo de suas palavras, como que se distanciando no lento processo
de absorção pelo silêncio, extinguiu-se todo.
Com as mãos trêmulas, apalpei a poltrona vazia ainda há pouco ocupada
pelo sinistro mensageiro da descrença e do desespero.
Lentamente o sol descamba ao acaso.
Avermelha-se o ocidente aos últimos lampejos da grande lâmpada. Depois
esmaecem as tonalidades vivas. Nos campos solitários. O curiango rompe o
hierático silencia com seu canto nostálgico.
Anoitece...
Tudo é silêncio, e a natureza queda em profunda letargia.
Foi por acaso, por um desses acasos inexplicáveis o que, no conjunto de
acontecimentos que revestem a nossa vida sempre se apresentam com as
características singulares que lhes são próprias, que me chegou a triste
notícia da morte, ocorrida a muitos anos, de minha professora Ruth Motta
Mello.
Quase quatro décadas haviam transcorrido desde a última vez que a vi
numa distante manhã em que, já de malas prontas, aparecera em casa para
despedir-se de mim. Durante todo esse longo tempo eu não tivera a mínima
notícia de minha professora não obstante ter sempre procurado
localizá-la a fim de externar-lhe todo o meu reconhecimento pela maneira
atenciosa e gentil com que me distinguiu durante os felizes quatro anos
do curso primário que passei no Grupo Escolar de Novo-Horizonte, da qual
era digna educadora.
E agora, sob o rude impacto da notícia dolorosa, senti a pungente
aguilhoada da tristeza e da saudade. Um nó apertou-me a garganta, os
olhos se me embaciaram, soltaram-se as rédeas do meu pensamento e um
mundo de recordações se me apresentou. Vaguei, levado pela imaginação,
para longe, para muito longe dos tempos atuais, para os domínios
esquecidos de um passado distante, para a seara dulçorosa da minha
infância despreocupada. Tudo revi, tudo se me apresentou como se por um
passe de mágica o passado feliz se unisse ao presente tristonho.
Que importa se as imagens, pela ação inexorável do tempo não mais se
apresentassem com o colorido encantador das antigas eras da minha vida?
A força da evocação compensa, em tais casos, o poder incoercível do
tempo e eu pude ver ante meus olhos uma ininterrupta seqüência de fatos,
num desfile de coisas mortas a ressuscitar, a viver novamente, a
delinear no seu saudoso conjunto, árvores frondosas, estradas
solitárias, uma velha igreja, a modesta casa em que nasci, o pequeno
edifício do Grupo Escolar e, primeiro plano, a figura simpática e
querida de Dona Ruth!
Ouvi-lhe, outra vez, os ensinamentos, os conselhos; acompanhei-lhe a
característica contração que fazia para nos parecer severa ao
repreender-nos por alguma peraltice ou má ação que tivéssemos praticado;
ocasiões essas em que ela nem de leve poderia imaginar que nós, os seus
alunos, vendo-a assim, mais e mais a estimávamos porque compreendíamos
que, sob aquela aparente severidade, o que transparecia era o profundo
sentimento de afeto por nós de seu boníssimo coração.
Desenha-se assim, em minha memória a imagem de uma pequena e modesta
escola primária. Do fundo verde-escuro, representado pela fronde de
velhas árvores, emergem contornos brancos do singelo edifício escolar.
Constitui ele uma mancha clara pincelando com a diferença da cor o
espesso colorido verde do estupendo e agreste quadro natural. Cobre-o
telhado enegrecido pela ação de tantas chuvas que suportou e cujo
tamborilar, naquelas remotas eras, soava sons aos meus ouvidos com
acordes sublimes de uma canção divina e misteriosa.
Foi ali, dentro de suas velhas paredes, ouvindo a sinfonia do vento nas
ramagens das árvores próximas, que eu tive a ventura de conhecer a única
professora da qual recebi, os únicos ensinamentos que pude adquirir num
estabelecimento educacional: o ensino primário.
Vejo-a ainda em sua mesa de trabalho com seus olhos negros a destacar-se
do moreno pálido do seu rosto emoldurado pela vasta cabeleira castanha.
Vejo-a afagando os meus cabelos revoltos de garoto livre e sonhador,
criado na vastidão sem limites da cidade de Novo-Horizonte. Recordo-me
muito bem da última vez que a vi quando nos deixou, partindo para a
cidade de Campinas, enquanto eu lhe depositava nas mãos o ósculo do meu
respeito e da minha imorredoura gratidão.
Esta é a modesta e sincera homenagem que posso agora prestar como
tributo de gratidão, a memória daquela que, sob moldes humaníssimos e
quase maternos, abriu-me a réstea de luz da alfabetização da cartilha
“Caminho Suave” de nossa educadora paulista, Branca Alves de Lima.
O estranho visitante nunca mais apareceu!
A curiosidade
levou-me há dias...
NELSON VALENTE*
- Vi todas as minhas doenças reunidas, enquanto as olhava, não eram mais
doenças e sim rosas que seriam plantadas e cresceriam.
A curiosidade levou-me há dias, a rebuscar nuns velhos papéis que guardo
no fundo de uma gaveta esquecida, um pequeno caderno, no qual, à guisa
de diário, na minha já distante adolescência, eu já rabiscava fatos ou
acontecimentos passados em nossa cidade – Novo-Horizonte – São Paulo.
São folhas esparsas de uma era longínqua e saudosa, e nas páginas
amarelecidas do modesto livreto pude sentir todo um poema de ternura e
saudade, toda a beleza das épocas remotas. Traços de coisas que se
passaram, ensaios de incipientes composições literárias, inícios de
contos brotados do fundo de nossa imaginação juvenil, fotografias de
amigos que desapareceram, lembranças de namoradas que se diluíram na
voragem dos anos que se sucederam...
E a velha e modesta que era Novo-Horizonte, com seus encantos de então,
com suas imagens características de pequenina e esquecida povoação do
Interior, passou pela minha memória, envoltas nas brumas da saudade. Com
que emoção, pois, curvado sobre o livrinho de anotações manuseando suas
folhas desbotadas pelo tempo, sentindo-lhe o cheiro característico dos
anos acumulados, eu sentia refluir os antigos sonhos cor-de-rosa, os
mesmos laivos de grandeza instilados pela fonte da inocência, nascidas
da pureza dos nossos sentimentos juvenis, quando aureolava à nossa vida
s mística , a deliciosa ondas das esperanças mais sublimes;quando
acreditávamos que nas lindas noites de prenilúnio os fantasmas se
reuniam à sombra da alta e frondosa árvore próximo da casa de minha avó.
Quantas recordações:
O sol caía a pino sobre Novo-Horizonte.
O trecho da rua Trajano Machado, compreendido entre a rua São Sebastião
e a avenida Cel. Junqueira, onde terminava a cidade, encontrava-se
absolutamente deserto. Nem uma viva alma a se movimentar na via
silenciosa, batida em cheio pela soalheira implacável.
Súbito, um cavaleiro isolado aparece na esquina da Cel. Junqueira e,
fincando a esporas no animal, desce a rua Trajano, estreptosamente,
provocando a curiosidade dos sonolentos comerciantes que, apressados,
acorriam às portas dos seus estabelecimentos para ver o que estava
acontecendo.
O arrojado cavaleiro, notando-se alvo da curiosidade geral, exibia-se em
arriscadas manobras eqüestres, lançando o animal sobre as calçadas e
proporcionando um inusitado espetáculo às pessoas que, pouco a pouco,
foram se aglomerando nos passeios de terra batida da mencionada rua.
O cavalo, colhido de surpresa pelo brusco movimento, relinchou
ruidosamente, escarvando com os cascos a superfície ressequida do solo.
Densa nuvem de poeira avermelhada elevou-se para o alto envolvendo em
seu torvelinho o cavaleiro e o animal.
Era evidente que o desconhecido cavaleiro tivera pouco antes um contato
mais prolongado com Baco, pois que, a certa altura, começou a dirigir
pesados insultos às pessoas próximas, ameaçando de fechar o comércio à
bala da rua Trajano.
E vai daí, num gesto digno dos mais famosos pistoleiros do velho oeste
americano, saca de um revólver de cano longo e dispara dois tiros para o
ar, gritando:
- Eu fecho este comércio!
Diante do irretorquível argumento do seu reluzente revólver, o comércio
fechou as portas, mesmo. Fechou com uma rapidez nunca vista, com as
folhas das portas de madeira a se entrechocarem ruidosamente, enquanto
lá fora um verdadeiro pandemônio se estabelecia, ouvindo-se imprecações,
gritos, berros, tiros, correrias e mais ruídos indispensáveis às cenas
dessa natureza.
Esgotada a carga da arma perigosa, felizmente toda ela atirada para o
ar, o façanhudo cavaleiro, satisfeito por ter fechado o comércio da rua
Trajano Machado, retirou-se velozmente desaparecendo na esquina da
avenida Cel. Junqueira.
E a paz voltou a reinar nessa parte de minha cidade de Novo-Horizonte.
Tudo isso disse-me o caderno de anotações. Tudo isso e mais uma porção
de coisas. Falou-me longamente das coisas esquecidas de minha terra!...
A chegarem no alto da colina, os cavaleiros retesaram violentamente as
rédeas dos animais,suspendendo a marcha forçada de longas horas. Os
cavalos, colhidos pelo brusco movimento, relincharam ruidosamente,
escarvando com os cascos a superfície ressequida do solo.
Densa nuvem de poeira avermelhada elevou-se para o alto envolvendo em
seu torvelinho homens e animais.
O cavaleiro que parecia comandar o pequeno grupo ergue o corpo sobre o
arção da sela, espalma a mão diante dos olhos para protege-los dos raios
solares. Em seguida descreve com o braço largo gesto, indicando algo em
direção ao poente. Seus companheiros, imitando a atitude do chefe, fixam
os olhos no rumo indicado, vislumbrando ao longe, numa clareira aberta
entre a densa e variada vegetação, um grupo de modestas casas. Um
sorriso de satisfação brota-lhes dos lábios requeimados, enquanto as
mãos, num gesto instintivamente executando muitas vezes durante a rude
jornada, procuram os grandes lenços para enxugar o suor que lhes escorre
abundantemente pelas faces cansadas.
O córrego do Vale das Sombras ficara para trás, serpenteando entre o
cerrado retorcido e os viajantes ansiavam por encontrar curso de água
onde pudessem novamente fruir o refrigério amigo das sombras marginais.
O sol, que durante o dia todo vertera sobre a terra os seus raios de
fogo, descambava lentamente para o acaso, franjando de tonalidades
douradas as nuvens que se acastelavam a leste. O calor, porém, ainda era
intenso, queimando a epiderme do rosto e das mãos dos exaustos
cavaleiros obrigando-os a procurar refúgio sob a copa de altas árvores.
Mas, a marcha que iniciaram dois dias antes do longínquo Vale das
Sombras, encontrava-se agora em sua fase final.
Lá adiante, na clareira promissora, onde o aglomerado de toscas
choupanas o repouso necessário, a merecida recompensa pelo esforço
despendido a áspera e perigosa travessia do sertão.
Prelibavam a alegria da próxima chegada ao pequeno núcleo habitado,
quando já se delineava o curso sinuoso Rio da Fonte.
E foi então, em meio ao profundo silêncio da hora crepuscular e cercados
pelo hierático esplendor das virgens solidões, que puderam sentir a
imensa satisfação de autênticos pioneiros.
O Vale das Sombras, envolta pelos últimos lampejos do sol, lhes acenava
ao longe.
Sulcador
majestoso dos espaços azuis
NELSON VALENTE*
Conta-se uma história, que um certo dia, numa manhã ensolarada, que um
pássaro aparecera em uma fazenda na minha querida cidade natal –
Novo-Horizonte/SP.
Era pequeno e, ao invés da característica plumagem negra de urubu,
apresentava-se com o corpo revestido por leve penugem branca, o que lhe
dava um aspecto feio e grotesco.
Seu aparecimento provocou intenso alvoroço, entre os moradores. Santiago
agarrou-o, acolheu-o carinhosamente, levou-o para casa, deu-lhe
alimentos e, num gesto que bem demonstra a sensibilidade de seu coração,
trouxe para a cidade.
À medida que o tempo passava, crescia o pequeno pássaro transviado,
aumentando na mesma proporção o afeto recíproco entre Santiago e o
sulcador majestoso dos espaços azuis.
A primitiva penugem branca fora substituída pelo sombrio e imaculado
colorido negro; o bico de ave carnívora delineava pouco a pouco os seus
poderosos contornos a procura do alimento preferido.
Em estranha e singela cerimônia, Santiago deu-lhe o nome de Sombra,
gravando-o em pequena chapa de reluzente metal que lhe foi amarrado à
perna direita.
E desde então, o negro pássaro constitui-se alvo de todas as atenções.
Manso e obediente às ordens de seu senhor, enchia a casa toda com o
rufar de suas enormes asas; quebrava o silêncio com o seu crocitar
característico, afugentava os gatos do telhado, investindo, de outro
lado, contra os representantes da raça canina que, furtivamente,
procuravam virar as latas que encontravam no fundo do quintal...
Sob o abrigo seguro de seu humano protetor, dormia encolhido no recanto
isolado de uma dependência existente numa extremidade da casa. Acordava
aos primeiros albores da manhã, estirava as asas num genuíno
espreguiçamento matinal e, com passos lentos e desengonçados, caminhava
pela casa toda, a espera da primeira refeição, que não faltaria.
Depois, talvez cedendo aos impulsos do instinto, erguia vôo,
desaparecendo na linha azul do horizonte.
Quiçá encontraria nessas viagens, lá ao longe, no recesso da mata
silenciosa ou no cume de uma rocha alcantilada, a doce companheira que,
arisca e desconfiada, recusava-se a segui-lo, não acreditando na bondade
dos homens.
Horas depois regressava, anunciando ruidosamente sua chegada. Santiago
esperava-o sempre, oferecendo-lhe como de hábito, suculentos nacos de
carne que Sombra devorava em poucos instantes.
Mas, a maldade humana – certa feita, quando pousara em plena clareira no
centro da cidade, garotos travessos o agarraram brutalmente
fraturando-lhe uma asa. Santiago, prevendo o desastre, correu
apressadamente, levando para a casa o urubu ferido. Prodigalizou-lhe
todos os cuidados, recorrendo mesmo à competência de conhecido médico da
cidade para salvar o pássaro que tanto estimava. Mas a terrível fratura
exposta não deixava dúvidas sobre o intenso sofrimento e próximo fim da
infeliz ave. Santiago não poderia suportar a lenta agonia do pobre
Sombra. Sem coragem para efetuar o golpe de misericórdia , encarregou
seu irmão Cândido para desfechar o tiro decisivo. Este, vacilante e
comovido, executou a ordem dolorosa.
O estampido da cápsula ao deflagrar-se ecoou tristemente pela casa
repercutindo em todas as dependências.
O negro pássaro agitou pela última vez suas imensas asas, como
derradeiro agradecimento ao seu benfeitor, quebrando-se depois na eterna
imobilidade da morte.
Santiago sentiu um nó na garganta e,no soluço que brotou do coração bem
formado consubstanciava-se toda a afeição que, de modo singular,
dedicava ao pobre ser alado que certa manhã aparecera na cidade de
Novo-Horizonte/SP, provocando intenso alvoroço!...
Ernesto
“Che”Guevara e Jânio da Silva Quadros
NELSON VALENTE*
Em agosto de 1961, os jornais e revistas de todo o mundo publicaram
fotos procedentes de Punta del Este, famosa cidade praiana do Uruguai.
Mas não de vedetes e estrelas de cinema, porém, de cavalheiros,
profissionais da diplomacia, da política, das finanças, da economia, da
sociologia, os quais sob aquele sol e aquelas águas acostumadas a banhar
idéias mais curtas e cabelos mais compridos, estarão concentrados no
emaranhado jogo de proposta e contrapropostas, de avanços e recuos de
uma reunião internacional: a Reunião Extraordinária do Conselho
Interamericano Econômico e Social em Nível Ministerial.
Essa reunião tem uma história bastante comprida, a precedê-la, a própria
história do pan-americanismo, com quase dois séculos de reuniões,
tratados, declarações e idéias. O capítulo que abrange os nossos dias
começa com a carta do ex-presidente Juscelino Kubitschek, ao seu colega
dos Estados Unidos, Dwight Eisenhower, datada de 28 de maio de 1958. Em
essência a carta dizia: assim como uma corrente não é mais forte do que
seu elo mais fraco, o mundo livre liderado pelos estados Unidos não
poderia ser mais forte do que o mais fraco e o mais pobre dos países que
o integram. E partindo daí lançava a tese de que o acelerado
desenvolvimento econômico e social da América Latina deveria passar a
ser considerado pelos Estados Unidos como um problema político e
estratégico da mais alta importância, peça de seu próprio sistema de
segurança.
A essa tese o Brasil dava o nome "logan" de Operação Pan-americana e
ajuntava que o desenvolvimento desta região ocidental não seria
atingido, a menos que, a exemplo do que fizeram em relação à Europa
depauperada que emergiu da II Guerra Mundial, os Estados Unidos, agora
ajudados pelos próprios países europeus por eles reerguidos, passassem a
falar e agir em matéria de ajuda à América Latina, em termos de bilhões
e não mais de milhões. Antes de passar a palavra aos Estados Unidos, o
Brasil enviou-lhes técnicos para lembrar-lhes que, do jeito que as
coisas iam, a União Soviética sozinha, teria em 1980, renda per capita
superior à renda per capita de todo o bloco de países ocidentais.
A disparidade entre países ricos e países pobres, bem como as relações
de domínio e proteção, de exploração ou de solidariedade entre eles são
coisas que sempre existiram, desde que o mundo é mundo o que em nossos
dias há de novo nessas relações é, primeiro, que essa disparidade tende
sempre a agravar-se, isto é, os países ricos se vão tornando cada vez
mais ricos, distanciando-se dos que são pobres e, segundo, que graças à
própria tecnologia que possibilitou esse estado de coisas, os países
pobres não mais se conformam com sua própria pobreza. Daí resulta o
dilema diante do qual se encontram os Estados Unidos; ou eles ajudam os
países pobres a desenvolver-se ou, estes, para desenvolver-se, acabarão
optando pela mudança das regras do jogo. Em outras palavras: eles se
desenvolverão dentro do regime de vida ocidental, de preferência, ou
fora dele, se necessário. Não faz chantagem quem diz aos Estados Unidos:
"ajudem-nos ou não poderemos resistir ao comunismo". Pode parecer frase
de chantagista, mas trata-se do desesperado apelo de um aliado, que é o
que a América Latina nunca deixou de ser em relação aos Estados Unidos.
Na base da decisão americana de tudo fazer por ver consolidar-se ao sul
do Rio Grande uma civilização democrática e progressista, terá de estar
o propósito de responder a essa ameaça.
Cada vez mais se generaliza a convicção de que o principal resultado da
Operação Pan-americana tenha sido encontrar para os Estados Unidos uma
atitude em relação à América Latina que, só mais tarde, eles adotariam.
Pois, no plano das coisas concretas, os dois únicos frutos que
resultaram da frondosa, magnífica e riquíssima árvore da Operação
Pan-americana aí estão, não a afirmá-la, mas antes a negá-la: o Banco
Interamericano de Desenvolvimento, cujo capital se reduz à soma de l
bilhão de dólares, simplesmente ridícula diante da magnitude dos
problemas em que se debate a América Latina, e ainda assim, metade do
mesmo tendo sido realizado pelos próprios países latino-americanos, e a
Ata de Bogotá, endosso que, em setembro do ano passado, os
latino-americanos deram ao plano de 500 milhões de dólares para a
América Latina, preparado às pressas por Eisenhower sob a ameaça de
Kruchev de soltar foguetes contra Nova Iorque se os Estados Unidos
agredissem Cuba. O plano foi feito, o endosso latino-americano foi
obtido, mas o dinheiro ainda não veio para a América Latina. O capital
de 1 bilhão de dólares para o banco Interamericano foi a negação mais
categórica que se poderia contrapor a tudo que havia de essencial e
profundo na Operação Pan-americana. Erraram os Estados Unidos ao
propô-lo; erraram mais ainda os latino-americanos, ao aceitá-lo. Isso é
tudo que resultou das reuniões do Comitê dos 21 criado pela Operação
Pan-americana. É forçoso reconhecer que a dupla Eisenhower-Dulles não
era terreno em que medrassem frutos aproveitáveis.
Eisenhower recebeu de Truman uma América Latina débil e subdesenvolvida,
mas menos pressionada por problemas financeiros e mais esperançosa em
relação à ajuda que poderia vir a receber dos Estados Unidos, e legou-a
a Kennedy à beira da insolvência, ainda mais debilitada pelo pauperismo,
hostil como nunca o fora antes e atingida, em Cuba, do mal que sempre se
procurara evitar, o comunismo.
Kennedy, liberal ele próprio e cercado, na maioria dos liberais tem
outra visão do problema latino-americano. A reunião de Punta del Este
foi proposta por ele como o segundo dos dez pontos contidos no discurso
que em 13 de março, pronunciou diante de todos os Embaixadores
latino-americanos em Washington, exceto os de Cuba e da República
Dominicana (relações diplomáticas rompidas), e no qual, após dizer que
os povos deste Continente devem "proceder com ousadia, consoante o
conceito majestoso da Operação Pan-americana", lançou a nova cruzada a
que denominou "Aliança para o Progresso". São os seguintes, em resumo,
os dez pontos mencionados por Kennedy: 1° elaboração de um Plano de Dez
Anos, para cuja realização os Estados Unidos estarão prontos a prover
recursos de alcance e magnitude comparáveis aos que destinaram à
reconstrução das economias da Europa Ocidental (Plano Marshall); 2°
convocação de uma reunião de nível ministerial do Conselho
Interamericano e Social, no qual se iniciaria a elaboração desse grande
plano, que constituirá a base da Aliança para o Progresso; 3° emprego de
500 milhões de dólares previstos na Ata de Bogotá; 4° apoio à integração
econômica latino-americana; 5° colaboração do exame sério e minucioso
dos problemas relacionados com o comércio exterior de produtos
primários; 6° aceleração imediata do programa de emergência intitulado
Alimentos para a Paz; 7° formulação de planos para o estabelecimento de
laboratórios regionais na América Latina destinados à pesquisa em
medicina, agricultura, física, astronomia; 8° aceleração dos programas
de preparação pessoal especializado para dirigir as economias ora em
desenvolvimento da América Latina; 9° reiteração do compromisso dos EEUU
de defenderem qualquer nação americana cuja independência esteja
ameaçada e apoio à proposta chilena de procederem os latino-americanos a
uma "sensata limitação de armamentos". Além desses pontos, Kennedy a
acenou com outro, que não escreveu: sua presença na reunião que
convocara. Seria a prova provada de sua sinceridade de propósitos, uma
homenagem à América Latina. Essa oportunidade já está perdida. Kennedy
não irá a Punta del Este. É claro que as justificativas existem: a crise
de Berlim, a possível ida de Fidel Castro; o fato do Congresso americano
estar votando a lei de ajuda ao exterior e sua presença é indispensável
etc.
Ao constatarmos a ausência de Kennedy, nos lembramos de que a ordem de
invadir Cuba foi dada por ele após ter pronunciado o discurso da Aliança
para o Progresso, poderíamos concluir que o êxito da reunião de Punta
del Este começou a perigar mesmo antes dos delegados lá chegarem.
Preferimos meditar nas palavras pronunciadas em 22 de julho por Chester
Bowles:
"Sob o governo Kennedy, os Estados Unidos voltam a descobrir a América
Latina. Houve uma mudança, e hoje é visível nos Estados Unidos um desejo
de lutar contra a pobreza, contra a injustiça dos sistemas agrícolas e
uma vontade de ajudar os novos governos democráticos. O mais importante
é que repelimos a letargia, a apatia e o sentimento de indiferença que
existia".
Guevara passou três semanas cheias de emoções políticas e pessoais (de 2
a 20/8/61), etapa mais emocionante de sua vida e quando o presidente
John Kennedy lançou o ambicioso projeto da aliança para o Progresso, em
Punta del Este, no Uruguai.
Os maiores países da América Latina, a Argentina e o Brasil,
participavam das idéias gerais do projeto de Kennedy e seus presidentes
pareciam manter vínculos invisíveis com o mandatário norte-americano. O
fracasso da invasão contra Cuba enfraquecera Kennedy que, buscou uma
aliança duradoura com os países do sul. Estes países eram governados por
homens reformistas da nova geração, para eles apoiar Kennedy
representava uma possibilidade de concluir seus períodos presidenciais
seriamente ameaçados.
Guevara foi convidado verbalmente a visitar o Brasil, o presidente Jânio
Quadros, pelo chefe da delegação e ministro da Economia Clemente
Mariani. No dia seguinte, os brasileiros confirmaram oficialmente o
convite como também ele teria um encontro com Arturo Frondizi em Buenos
Aires.
O principal assunto destes encontros com Jânio e com Frondizi, era a
Aliança para o Progresso.
Guevara fez uma análise minuciosa do projeto norte-americano, após sua
exposição por Douglas Dillon. Comparou os progressos de Cuba em dois
anos de revolução com os progressos prometidos à América Latina,
mostrou-se cético sobre a possibilidade de que os fundos de ajuda
mencionados chegassem algum dia a ser entregues, e esboçou as bases
sobre as quais Cuba poderia voltar a considerar sua participação nos
planos interamericanos. Sua intervenção causou forte impacto.
Guevara construiu uma peça oratória sumamente concisa, que se
caracterizava pela economia de adjetivos e pelo tom elevado da crítica.
Sentia-se que Cuba abria um compasso de espera às consultas pessoais que
os presidentes Frondizi e Jânio Quadros queriam fazer por intermédio de
Guevara e que, a idéia de um sistema pan-americano, reconstruído pelo
espírito kennediano, não era totalmente desagradável a Cuba, com a
condição que fosse respeitada a sua forma socialista de governo.
Guevara aplicou um golpe nos delegados norte-americanos, lendo um
documento secreto relativo ao desenvolvimento econômico da Venezuela.
Eles empalideceram e alegaram não ser um documento oficial
norte-americano e sim a opinião de um funcionário. A polêmica provocada
causou transtornos e continuou viva na Venezuela.
Entre os problemas criados pela visita de Guevara a Buenos Aires existia
o relativo ao documento de identidade que ele ingressaria no país,
utilizava-se de um passaporte, necessitando o visto na embaixada
Argentina em Montevidéu. Isso era exigido e cai por terra o segredo
sugerido pelo presidente Frondizi e todos, inclusive a CIA, sabem que
Guevara visitaria a Argentina.
No dia 18/8/61, Guevara viajou para Buenos Aires e lá foi recebido por
uma pequena escolta sob as ordens do chefe da casa militar, no aeródromo
de Don Torcuato, a uns 30 km da capital.
Guevara e Frondizi confidenciaram a portas fechadas durante 1 hora e 20
minutos. Os temas de desenvolvimento latino-americano foram os primeiros
da conversa e o das questões econômicas. Mas o tema da entrevista era
outro, ou seja, seria inaceitável que Cuba ingressasse numa organização
militar extracontinental, que se incorporasse ao Pacto de Varsóvia. Se
Cuba desse esse passo, seu retorno à família interamericana tornar-se-ia
impossível.
Guevara responde que esta hipótese não ocorreu, mas é fato que cuba
conta com assistência militar soviética e dos demais países socialistas.
Os dois discutiram apaixonadamente os temas latino-americanos, o
presente e o futuro da Argentina e de Cuba. Enquanto conversavam, um
furacão percorria os gabinetes dos ministros, os escritórios dos chefes
militares, as agências informativas e as embaixadas.
Guevara deixa a Argentina e voa para Brasília. No dia 19/8/61, o
presidente Jânio Quadros condecorou Guevara com a Ordem Nacional do
Cruzeiro do Sul, numa cerimônia improvisada no Palácio do Planalto. Ele
ignorava que iria receber uma condecoração, mas também o caráter oficial
do encontro. Ele não tinha como retribuir a condecoração, como é usual,
e o discurso de Jânio foi breve. Preferiu Guevara retribuir com discurso
breve, aceitando a distinção como entregue ao governo revolucionário e
ao povo cubano, sem significado pessoal.
Em 19 de agosto, Che Guevara é recebido por Jânio Quadros em Brasília, o
qual aproveita a ocasião para atender um pedido do núncio apostólico,
monsenhor Lombardi, para interferir na libertação de 20 padres
espanhóis, presos em Cuba.
No caso dos padres, Guevara concorda com a libertação, avisando,
entretanto que, dentro das regras cubanas, eles serão em seguida
expulsos para a Espanha. Jânio manifesta sua opinião de que a expulsão é
um assunto interno de Cuba, que só a ela cabe resolver. O Brasil defende
a libertação e com esse ato considera o pedido satisfeito.
A conversa entre Guevara e Jânio girou sobre: a conveniência de não
aderir ao pacto de Varsóvia, insinuações sobre a democracia
representativa, porta aberta para Cuba na organização norte-americana.
No Rio de Janeiro e em São Paulo a repercussão foi forte com as massas
nas ruas, bandeiras cubanas e retratos de Che Guevara. O escândalo
estourou como na Argentina, e Jânio, uma semana depois abandonou o
governo sob as ameaças da direita.
Frondizi recebeu tamanha quantidade de ataques que antes de completar
sete meses, foi também derrubado. Já, Kennedy, a quem coube o papel
equívoco de invasor armado e reabilitador diplomático, foi assassinado
dois anos depois, numa confabulação obscura onde as relações com Cuba
foram fator de sua transcendência.
Na vida de Ernesto Che Guevara, a inteligência e a violência se
alternaram o tempo todo.
O ano de 1963 apresentou-se agitado em toda América Latina. No Brasil
crescia a organização das ligas camponesas, sob a tolerância do
presidente João Goulart, um nacionalista que se apoiava cada dia mais
nos esquerdistas dos sindicatos e nos intelectuais.
Resumindo, onde quer que Che Guevara pousasse, aconteciam calamidades
com conseqüências desastrosas, aqui no Brasil, foi condecorado por Jânio
Quadros e cinco dias depois, a renunciar.
(*) é professor universitário, jornalista e escritor
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