 |

|
Paloma
Biografia
Paloma nasceu no Chile, e migrou para o Brasil no ano 1976. Hoje
possui nacionalidade chileno-brasileira.
No Chile formou-se como professora de Artes Plásticas e Desenho
Industrial, na extinta Universidade Técnica do Estado, no ano
1970. No Brasil fez pós-graduação em Criação Publicitária na
FURB (Universidade Regional de Blumenau), onde trabalhou por 16
anos, como professora de Pintura, Desenho Modelo Vivo e
Escultura.
Paloma é artista plástica desde a infância. Com 12 anos ganha
prêmio em cartaz, segundo lugar, Concurso organizado pelo
Ministério de Educação Chileno.
No Brasil realizou varias exposições, três individuais, e muitas
coletivas. Suas obras variam entre pinturas, esculturas, e
cerâmicas utilitárias e decorativas.
Como escritora, inicia suas atividades no ano 1985, escrevendo
contos infantis para o Jornal de Santa Catarina aos domingos.
Hoje é membro da SEB, e em seu SITE
www.letrasetintas.com.br , podem ser lidas historinhas
ilustradas, livros, e apreciar obras de pintura e cerâmicas.
|
Publicações
 |
A
Sociedade do Futuro
Uma invenção para mudar a maneira de escolher os governantes de
uma nação.Propostas para escolher um "Governo único", e algumas
sugestões para esse novo governo. |
 |
O
Grande Castigo Carmico
Soldados que destroem uma planeta com uma guerra nuclear, são
condenados a reencarnar no corpo de um animal. Mas em outro
planeta, muito distante da Terra. No livro se narra o que se
passa com eles durante sete vidas, sete encarnações, onde eles
evoluem, até serem, mais uma vez, uma sociedade que inventa as
armas mortais, pela segunda vez. |
 |
Os
homens do Futuro
Contos. Todos os contos enviados fazem parte deste livro e de
livros publicados com a SEB. |
Textos
PERDIDAS NO CEMITÉRIO
Meu pai morreu em Santiago do Chile, durante o mês de novembro, há
muito tempo.
Naquele dia, alguma coisa me incomodava profundamente. Antes de ir
para a escola, olhei para meu pai por longo tempo, e quando o
abracei para dizer-lhe adeus, tive a impressão de que fosse a última
vez. Durante toda essa manhã, eu andei estranha, com o peito
apertado pensando no meu pai doente. Minhas colegas de aula
perguntaram-me porque estava tão chata naquele dia e eu contei-lhes
a verdade: - “Acho que meu pai está morrendo”- E como era de
costume, minhas amadas amigas tentaram me consolar da melhor forma
possível, contaram piadas até fazer-me rir novamente.
Assim que voltei para casa, um vizinho veio imediatamente me
abraçar, sem falar nada, olhos úmidos de dor. Eu parei de respirar.
Não conseguia mexer nem um músculo sequer. Era como se eu morresse
junto com meu pai naquele momento de minha vida.
Mas a morte era dele, não era minha. Portanto, meus pulmões reagiram
e aspirei fundo, enquanto as lágrimas corriam pelo meu rosto.
Durante à tarde, minhas amigas da escola apareceram em casa. Todas
elas vestindo uniforme, com flores na mão e chorando mais do que eu.
A Dalila Muga dava soluços terríveis, parecia histérica.
Abraçava-me, chorava, olhava tudo ao redor, e assoava o nariz
estrondosamente. Olhei para ela e sorri docemente. Ela chorava de
minha pobreza, da casa humilde em que eu morava, da simplicidade da
minha vida, chocada, pois com certeza ela jamais pensou que eu fosse
tão pobre assim.
Um mês depois da morte de meu pai, na Escola Técnica onde eu
estudava “Desenho aplicado” chegaram as terríveis provas de fim de
ano.
No meu país, naqueles anos, todos os alunos tinham que fazer exame
diante de comissão de cinco professores, em cada matéria. Quem
tivesse como média de notas sete ou seis, passava direto, pois no
Chile são essas as notas mais altas. Quem tirava cinco, podia
assumir a nota ou prestar exame e subir até seis, e quem ostentava
um quatro, que era a avaliação mínima de aprovação, era obrigado a
fazer exame frente à comissão de mestres, muito mais de quem estava
reprovado com notas inferiores.
Lembro que eu fiz exame em história e subi minha nota de cinco para
seis. Depois, fui procurar minha turma de amigas para saber das
novidades de cada uma. E foi ali que tudo começou. A Nora Poblete me
apareceu correndo e gritando com euforia:- “Passei, passei em
inglês..”- E todas começamos a gritar em coro, pois a Nora repetia
em inglês todos os anos, e depois que reprovava, ela chorava que nem
Maria Madalena. Depois da euforia, ela explicou que tudo era graças
ao meu pai, pois ela o havia invocado na noite anterior, rezando, e
havia-lhe prometido que se fosse bem nos exames, ela iria ao
cemitério fazer-lhe uma visita. Emocionada, que eu não sabia que meu
pai podia fazer um milagre, eu prometi ir junto com ela, no sábado à
tarde. Imediatamente, Cristina Saavedra nos convidou para tomar café
na casa dela, afinal ela morava pertinho do cemitério, e marcamos
para as três da tarde na casa dela.
Nora chegou na minha casa, depois do almoço. Eu coloquei meu melhor
sapato, salto alto, bico fino, pois os pais da Cristina eram gente
fina. A Nora então parecia que ia para uma festa da alta sociedade
de tão chique que estava. Saímos de minha casa caminhando, cruzamos
a ponte de Renca sob o rio Mapocho, e depois de meia hora estávamos
na casa da Cristina, batendo papo, tomando chá, é rindo de mil
coisas.
Quando chegamos na porta do cemitério, só então percebemos que
estávamos super atrasadas, pois as portas estavam-se fechando.
Corremos, nesta altura com os braços cheios de flores, e encaramos o
guarda, que se negava a deixar-nos entrar por causa da hora. Alegava
que logo ia escurecer, que de noite havia assaltantes perigosos que
matavam jovens lindas como nós. Mas eu jurei que a tumba de meu pai
estava logo ali, na estradinha e não ia levar nem 15 minutos deixar
as flores e sair por ali mesmo. E ele acreditou!
Entramos pela avenida principal, caminhamos rapidinho até o final
dessa estrada, dobramos para a esquerda, depois para direita, e
chegamos na tumba, cansadas, suadas, e apuradas, que o sol estava
começando a se pôr no horizonte. Rezamos, eu chorei uma lágrima, e
começamos a percorrer o caminho de volta.
Foi ali que lembrei que a segunda entrada do cemitério estava a
menos de duas ruas. E fomos até lá. Mas, quando chegamos nela, as
portas estavam com cadeados, não havia nenhum guarda sequer, e
encaramos a triste verdade. Teríamos que desfazer todo o percurso.
Mas depois de três ruas já estávamos perdidas.
Eu achava que havia que virar para a direita, a Nora achava que era
para esquerda e como o sol estava quase no fim, corremos por
qualquer lugar, que afinal meu pai não iria permitir que nada nos
acontecesse.
Quando estava escuro, com todas as luzes internas acesas, sem poder
achar a rua principal por onde havíamos entrado, dando voltas em
círculo, a Nora me disse:
- Não agüento mais estes sapatos. Chega. Dói-me tudo.
E eu achei ótima a idéia de tirar os sapatos, pois meus pés estavam
inchados e eu estava cansadíssima. Olhamos para o chão, todo
asfaltado, bonitinho, e até começamos a achar divertida nossa
aventura.
De repente, uma sombra cruzou a nossa frente. Depois, um barulho no
meio de uma tumba nos chamou a atenção. Assim que vimos um vulto se
mover pelo chão, aliás, nunca soubemos se era rato, ou gato, o que
fosse, a Nora se abraçou a mim, gritando:
- Os mortos estão começando a sair, estamos perdidas!
Eu, valente como nunca, fiquei braba e dize-lhe que eram bichinhos e
que nada ia nos acontecer. Mas, assim que um rato enorme cruzou pela
nossa frente pulamos dentro dos sapatos e começamos a correr.
Cansadas, suadas, no meio da escuridão, abraçadas o tempo todo e
olhando para os lados com cuidado, vimos outra vez o vulto lá na
frente. A Nora, quase chorando me disse:
- Falei-te que era um morto. Olha bem, é todo escuro e tem um capuz
por cima da cabeça.
- Será? O porteiro falou que estava cheio de bandidos aqui dentro!
- Eu prefiro um bandido a um fantasma!
- Eu não. Vamos a ficar quietas e olhar de longe...
E começamos a espionar a sombra que caminhava entre as tumbas.
Quando estávamos bem perto, vimos que não passava de uma pobre
mulher, cuidando das tumbas, colocando água nas flores com um balde.
Aliviadas, nos acercamos e falamos:
- Boa noite!
E foi ali que a Nora novamente se abraçou a mim e escondeu a cara no
meu pescoço. A mulher era tão feia, aliás eu nunca mais vi uma
mulher tão feia e com um bigode tão grande na minha frente, e
entendi na hora que a Nora achava que estava na frente de uma alma
penada. Mas, ela falou conosco demonstrando que estava bem viva:
- O que estão fazendo aqui dentro? Não sabem que está cheio de
ladrões roubando à noite? Podem até ser mortas e estupradas aqui
dentro!
- Estamos buscando a entrada principal!
- Nossa! Mas isso está longe!
- Mas a senhora nos poderia dizer por onde ir, por favor?
- Claro! Eu vou mostrar por onde fica...
E foi graças a aquela boa mulher que encontramos a rua grande,
enorme, cheia de mausoléus de gente famosa com a Nora alegando o
tempo todo que havíamos falado com um morto vivo.
Assim que chegamos nos portões, apareceu o guarda correndo com os
braços para cima:
- Graças a Deus que estão vivas! Já ia chamar a polícia!
- Por quê? Demoramos muito?
- Sabem que horas são?
- Não!
- Quase 10 da noite, faz 4 horas que entraram por esta porta suas
malucas!
E foi ali que eu comecei a rir.
Primeiro como rio sempre. Depois foi um ataque de gargalhadas, que
tivemos que sentar na rua, lembrando do morto-vivo, das baratas, dos
ratos, e com a Nora falando sempre:
- Me belisca, para saber se estou viva!
METAMORFOSE
O homem-lagarta entrou arrastando-se pelo jardim, com dificuldades.
Vira uma flor muito apetitosa, que despertou seu apetite voraz. O
homem-lagarta só pensava em comê-la. Mas para isso ele ia ter que
fazer um grande esforço. Aspirou bastante ar, tomou fôlego e, ato
contínuo, grudou seu corpo no grosso caule dessa planta e começou a
subir. Lentamente. Vagarosamente. Quando ele atingiu a primeira
folha, decidiu dar um cochilo, pois estava cansado e precisava
descansar nem que fosse por alguns minutinhos só. Mais tranqüilo,
voltou para o caule e continuou a subir e subir, até que a fadiga e
a fome detiveram-no mais uma vez na sua caminhada. Viu um botão
semi-aberto de uma flor pequenininha, e abriu sua boca com ânsia.
Infelizmente, um grupo de formigas caiu por cima dele, picando-o sem
pena, fazendo-o desistir de sua empreitada. Pediu desculpas para as
formigas, e saiu em busca de outro botão de flor para fazer um
aperitivo.
Depois de matar a fome, chegou a sede. Estava com a boca seca. Olhou
em redor e viu uma gota de água que pingava do o alto caído sobre
uma folha. Ele sorriu consigo mesmo, desgrudou uma parte de seu
corpo ficando com o pescoço esticado no ar, abriu a boca bem grande,
pronto para engolir essa água maravilhosa. Mas o infortúnio veio a
cair mais uma vez por cima dele. Despencou no vazio e foi caindo e
caindo, em direção ao chão. Mas, desta vez, ele encontrou uma teia
de aranha, que o recebeu no meio do ar. Balançou gostoso, sorrindo,
já que a rede era uma delícia. Era uma cama e tanto, que o havia
salvado de uma morte fatídica.
Assim que o homem-lagarta tentou sair dessa rede para continuar sua
subida, uma aranha grande se moveu, fitando-o com rosto curioso. Ela
depois do exame minucioso caminhou em direção a ele, disposta a
comê-lo, que afinal essa lagarta era com certeza um banquete
gastronômico para ela. O homem-lagarta começou a suar de medo.
Apesar de que a aranha era menor do que ele, sabia que elas eram
assassinas que adoravam devorar machos. Aliás, elas se alimentavam
deles sem piedade nenhuma. Conhecia a fama delas de muito longe.
Primeiro, elas atraíam os coitados com promessas de sexo para essa
rede, depois os seduziam, transavam, e quando as vítimas gozavam,
elas “cataplum”, os comiam pedacinho por pedacinho sem dó, até não
sobrar nada.
Assim que a aranha começou seu jogo amoroso, mexendo-se com
sensualidade e exalando um perfume enlouquecedor, o homem-lagarta
pensou com ele mesmo:- “Eu sou um macho bem dotado, um amante de
primeira. Será que não vou conseguir me livrar desta?” - E ficou na
espera. Quando a aranha mexeu seu corpo roçando no dele, pulou por
cima virando-a para baixo, e começou a fazer carinho. Beijos,
sussurros, até fazê-la gemer de desejo. A aranha se entregou à
paixão. Fechou os olhos extasiada, gemendo de gozo, e nem percebeu
quando seu amante maravilhoso fugiu às pressas. Ele subiu e subiu
por esse caule, sempre escondido entre folhas, e só parou quando o
cansaço o fez repousar mais uma vez.
O que o homem-lagarta não sabia é que aquele sono era diferente
desta vez, era um fenômeno que ele teria que experimentar para se
tornar crisálida. Grudou seu corpo num galho seco, e dormiu enquanto
seu corpo se encolhia e ficava rodeado de uma fina membrana de seda,
que o cobria como uma roupa para protegê-lo do frio. E enquanto
dormia, ele pouco a pouco foi transformando-se no mais lindo
homem-borboleta daquele jardim. Grande, imponente, maravilhoso, que
dias após rompeu esse casulo com dentes firmes, e abriu as asas com
felicidade.
O homem-borboleta, orgulhoso de sua transformação, esperou as asas
secarem para voar pela primeira vez. Lembrou daquela flor lá em cima
e sorriu. Agora nada o separava dela. Voaria alto, muito mais alto,
pousaria numa pétala, abriria sua boca e a comeria até o fim.
E o homem-borboleta abriu as asas e voou.
Mas no lugar da flor havia uma bela fruta madura, vermelha, nascida
daquela flor que ele vira uma vez. Ele deu voltas e voltas ao redor
dela, cheirando-a para ter certeza que era gostosa, indeciso se a
comia ou não.
Infelizmente, o que ele não vira foi uma aranha pendurada num fino
fio no ar, esperando-o fazia longo tempo. Ela com rapidez incrível
envolveu-o na sua teia, e o levou mais uma vez para essa rede para
alimentar uns 50 bebês-aranhas, com fome insaciável, que devoraram
seu próprio pai sem piedade, até não sobrar nem um pedacinho de asas
sequer.
|
 |