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Paulo R. Bornhofen


Biografia

Paulo Roberto Bornhofen, nascido em São José-SC, em 03/02/1964. Casado com Taisa Adriana Cardoso Bornhofen. É Tenente-Coronel da Polícia Militar do Estado de Santa Catarina, atualmente exercendo as funções de Sub Comandante do 10º BPM, em Blumenau. É integrante da Academia de Letras Blumenauense.
Bacharel em Ciências Contábeis, possui duas especializações, Administração em Segurança Pública e Gestão Estratégica de Organizações. Está concluindo o Mestrado em Desenvolvimento Regional.
Possui publicações na área da segurança pública, também participa de antologias com crônicas e do Projeto Pão e Poesia.
Tem publicado textos de segurança pública em jornais locais e revistas especializadas de circulação nacional.

Como pesquisador tem produções científicas publicas, e apresentadas, em congressos nacionais que envolvem a temática do turismo e da segurança pública.


Foi premiado no primeiro concurso Talentos do Servidor, promovido pelo Governo do Estado de Santa Catarina, com a crônica “O celular”.
Possui, entre outras, as seguintes condecorações: Medalha de Mérito Intelectual Major Ildefonso Juvenal, Polícia Militar de Santa Catarina e Prêmio Escola Policial de Estudos Superiores, Escuela Nacional de Polícia “Juan Carlos Gomes Folle” da República Oriental del Uruguay.

 

Contato: bornhofen@gmail.com

 


Publicações

 

 

 
 

Lançamentos:

   
 

 


Textos

 

A Távola Redonda

 

Meus amigos e eu gostamos de encerrar nossa reuniões semanais em torno de uma mesa de bar. Nem tanto pelos acepipes que procuramos devorar vorazmente, mas sim pelo momento de relaxamento e descontração que nos proporciona. Dia destes em razão de termos prolongado a reunião, chegamos em nosso refugio e deparamos com o mesmo com suas portas cerradas. Decepção total nos rostos de todos nós. Por alguma razão, que a razão desconhece, havia sido quebrada nossa rotina. Mas não nos damos por vencidos. Não seria a má vontade de um dono de estabelecimento gastronômico, agora elevado a condição de simples dono de boteco - percebam a velocidade com que mudam nossos conceitos com relação às pessoas quando somos contrariados - que nos levaria para a lona.

 

Rapidamente em nosso grupo surgiram vozes de protesto, se formando uma linda cena, com alguns respeitáveis senhores parados em frente a um boteco, fechado, erguendo seus punhos ao ar em um honrado brado de protesto. Mais rápido ainda surgiu uma solução para o impasse, vamos para outro lugar. Sem o menor pudor e cheios de razão, nos propomos a buscar refugio em outro lugar que nos recebesse. Nos comportamos como aquela “pura donzela”, que quando pronta a se entregar de corpo e alma ao seu amante, encontra este indisposto ou por qualquer razão indisponível, e para honrar sua libido sai à procura do primeiro que lhe satisfaça e a este se entrega deliciosamente, sem o menor remorso. Saímos em carreata percorrendo as vazias ruas da cidade procurando por uma ínfima luz que denunciasse a disponibilidade daquele que seria nosso novo refugio.

 

Enquanto nos deslocávamos fiquei observando aquela fila de carros, cada qual ocupado por uma única e revoltada alma, mas que agia como se fosso é só organismo vivo. Parava, andava, mudava de direção em uma linda harmonia. Devido ao adiantado da hora éramos praticamente os únicos a ocupar as ruas naquele momento, de modo que nada nos importunou em nossa verdadeira caçada. Alguém que pudesse ver a harmonia daqueles cavaleiros errantes certamente ficaria surpreso, até mesmo assustado com tal espetáculo. Para nossa satisfação encontramos aquilo que procurávamos, não um simples boteco, mais um lindo e maravilhoso estabelecimento gastronômico, onde pudemos não só saciar nossa fome e dividir nossas alegrias, mas acima de tudo executar nossa vingança.

 

Ainda não sei se a nossa alegria se deu em razão da qualidade do ambiente e do tamanho da fome, que eu pude constatar mais uma vez que progride geometricamente, ou pela oportunidade ímpar, que com toda a certeza nunca mais iria se repetir de vingarmos nossa honra. Aumentando a nossa alegria nos deparamos com uma enorme mesa redonda, local propício para o deleite (fique a vontade para usar sua imaginação). Já perceberam que em um restaurante as mesas no formato redondo são as que recebem os clientes mais felizes, é só aferir o nível de ruídos que vem destas mesas.

 

Após cada qual tomar o seu lugar e de sermos servidos da mais deliciosa das cervejas, enquanto os pedidos ainda eram preparados, já nos sentíamos donos daquele local, como se o mesmo estivesse sido construído para nos atender e que aquela mesa havia se preservada até a nossa chegada, não sendo usada anteriormente por nenhum atrevido ser. Diante de tal constatação não nos restava nada mais a fazer se não proporcionar os mais demorados prazeres para a nossa companheira, a mesa, que entre um brinde e outro foi batizada de A TÁVOLA REDONDA, que tal qual a lenda, após ferozes batalhas recebia o Rei Artur e seus valorosos cavaleiros, talvez não tanto cavalheiros, mas tudo bem. Nos prolongamos tanto em nossa árdua tarefa de proporcionar tanto prazer a nossa Távola que o tempo passou e não nos demos conta, mais isto também não importava mais, o que mais importava era o raro momento.

 

Finda a nossa aventura épica fomos cada qual para sua casa, felizes, saciados, satisfeitos e acima de tudo com aquele sentimento heróico de dever cumprido. Porém, foi só chegar em casa para a fantasia se desfazer e a realidade mostrar suas terríveis garras, a verdadeira batalha épica se apresentou. A mais terrível de todas as batalhas já travada por este simples mortal, que espero que o imortal Rei Artur e seus cavaleiros não tenham tido que travar, qual seja, a de explicar para a esposa a razão do atrevimento de chegar tão tarde em casa. Não pelo fato de a amada esposa ser cruel, mas simplesmente em razão da desculpa ser ridícula.

 

Após esta derrota descomunal, que mais tarde fiquei sabendo, também, foi sofrida pelos demais cavaleiros da nossa távola redonda, não nos restou outra saída se não a de semanalmente nos socorrermos da mesma mesa, no mesmo bar, nomeá-la novamente de Távola Redonda, nos revestirmos das honrarias de Cavaleiros, porém, com o cuidado de nomearmos um Cavaleiro de Senhor do Tempo, o homem que cuida do relógio e nos salva de termos que enfrentar novamente batalhas domésticas. Pois, já ensinava aquele grande general, as batalhas que não podem ser vencidas tem obrigatoriamente que ser evitadas.

Paulo Roberto Bornhofen

 

 


Atrás do poste

O amor é um sentimento tão belo, que chega a ser irritante começar um texto com esta afirmação. Grandes poetas já cantaram o amor com muito mais maestria, já cantaram e já choraram o amor. Diferente da felicidade, que nos faz chorar e rir de alegria, com o amor vamos do céu ao inferno na velocidade da luz. O amor é gostoso, provoca delírios, nos deixa entorpecido. Porém, quando o amor não é correspondido, gera sofrimento tão terrível(?).

Muitas pessoas sofrem de amor, simplesmente, por acharem que não são correspondidos. O que lhes sobra em amor, falta em coragem. Vivem uma vida inteira de sofrimentos, culpando o amor, quando na verdade deveriam culpar seus temores, sua covardia. Muitos destes sofredores, de tanto sofrer, encontram no sofrimento do amor não correspondido e covardemente guardado, um alento, um sopro de vida. Poder ver a pessoa amada, mesmo que seja na companhia de outra, já é o suficiente. Procuram desculpas, inventam situações, se tornam amigos do “outro” ou da “outra”, para num sentimento de pura morbidez, ter compartilhado consigo, os gostos e prazeres sentidos pela pessoa amada. Fazem isto com tal maestria escondendo tão bem seus sentimentos, que no transcorrer de sua existência, não mostram a mínima cicatriz. E, quando esta cicatriz esta a mostra, o tecido se regenerou tão bem, que se tornou imperceptível.

Neste jogo do amor, que não perdoa, os que não conseguem vencer, buscam as mais mirabolantes formas de tentar ludibriar, isto mesmo, tentam enganar o amor. Criam situações, armam jogadas, tramam movimentos, fazem o que podem para enganar, na tentativa de se verem envoltos em mágicos momentos, numa verdade solitária. Nestas situações a imaginação aflora com toda a sua grandiosidade alimentada por uma fertilidade estarrecedora. Por mais absurdas que possam ser qualificadas, por nós, simples espectadores, para eles, estes loucos do amor, são apoteóticos momentos.

A dor do sofrimento é vaporizada por raros momentos de prazer. Na busca desta felicidade insana, onde a covardia fala mais alto que a felicidade, tudo pode, menos a revelação. Tudo é aceitável, menos a franqueza. Tudo é desejado, mas nada se arrisca. Tudo se vive, menos a felicidade, pois esta só é real no delírio. E o delírio será que tem fim? Se não tem, se a loucura é total, então a felicidade é total, não exigindo nada mais para se completar. Assim se fecha o ciclo da loucura, que é alimentado pelo amor, pela covardia, pelo temor, pela negação, pela mentira, mas que em uma análise mais apurada nada mais é do que a felicidade. É por isto que os loucos só sofrem quando tem noção da loucura, mas em seus delírios são felizes. É por isto que eu me escondo atrás do poste, meu cantinho de felicidade, onde minha amada, o amor de minha vida, sempre esta a minha espera.

Paulo Roberto Bornhofen


 

 

Folia de Reis

A Folia de Reis é uma tradição de origem portuguesa que, lamentavelmente, vem se perdendo com o tempo, quase não é mais praticada. Mesmo nas comunidades descendente dos colonizadores da terra de Camões, os mais jovens já não a conhecem. Mas, acontece que em alguns redutos ela resiste bravamente. Resiste graças à insistência de alguns audazes que teimam em manter viva esta bela tradição. De forma bem simplista, podemos descrever a Folia de Reis como sendo a representação da peregrinação feita por Gaspar, Baltazar e Belchior, os Reis Magos, há mais de dois mil anos em busca daquele que ficou popularmente conhecido como o Menino Jesus. Por esta razão acontece no período de Natal.

A última vez que eu havia presenciado uma apresentação desta manifestação folclórica já não lembrava mais. Forçando a memória me vinham pequenos fragmentos como que em um “flash back” mau feito. Até que, para nossa surpresa, fomos acordados, em certa madrugada, após a terceira badalada do cuco, por uma cantoria. Começou meio que ao longe, mas na verdade era bem perto, apenas Morfeu, um tanto quanto zangado, se recusa a ir embora. Como vingança provocava uma leve confusão. Fiquei quieto, iria resistir, pois a companhia de Morfeu me era agradável. Passados alguns instantes ouvi uma voz que brandia “acorda, acorda”!

Pulamos da cama como em perfeita coreografia. O que fazer? O que fazer? O que fazer? Lavar o rosto foi à primeira coisa que me veio, e assim fiz. Ainda estava meio perdido, mas corri para a porta e ao abri-la fiquei maravilhado. Melhor dizendo, fiquei bestificado. Em frente ao portão um grupo de músicos, bem uniformizado e muito bem treinado entoava cânticos e ao redor deles um outro grupo, eram os amigos e os amigos dos amigos. Continuava perdido, não sabia o que fazer. Voltei para dentro e fui me vestir, tirar aquele pijama já que o mesmo não era condizente com a grandeza do momento.
Abri o portão e eles muito cerimoniosamente foram entrando. Primeiro no jardim e após em casa. E a cantoria continuava. Ainda sem saber o que fazer, fui para fora, deixando a casa para eles. Não foi uma situação premeditada de desrespeito, mas sim uma reação natural de quem de repente percebeu não estar à altura de tamanha cortesia. Não sei por que, mas continuava perdido.

Talvez vendo meu estado, ou pela experiência, meu amigo, o César, foi me orientando a como proceder. Improvisamos uma recepção, que por mais que nos esforçássemos, nunca seria um banquete a altura daquela corte real. Era o que conseguíamos fazer, diante da completa ausência de raciocínio. Mas meu amigo, o César, estava preparado. Em seu carro havia cerveja gelada e algumas centenas de salgadinhos para suprir aos desavisados, isto sim era realeza.

Feita uma pausa na cantoria, passamos a conversar com os integrantes daquele grupo folclórico e pudemos notar que eram pessoas alegres, descontraídas, assumidamente felizes, e que se esforçavam ao máximo, não apenas para manter viva a tradição, mas para amenizar ao máximo o trauma inicial que de certa forma causa em algumas pessoas, os desavisados. Trauma que se transforma em felicidade, não por imposição de decreto real, mas pela magia do momento que se revelou maravilhoso.

Quando o grupo partiu, não sem antes entoar uma cantoria de despedida, conjugada com um discreto, mas certeiro pedido de ajuda para que a tradição possa ser mantida, fiquei por alguns instantes me revirando na cama, procurando onde Morfeu tinha ido se esconder e me veio uma certeza. A certeza de que quem ao menos uma vez na vida for visitado pela corte dos três Reis Magos, pode dizer que tem amigos. No nosso caso a corte de Baltazar, Belchior e Gaspar era capitaneada pelo não menos nobre César, não o imperador, mas o amigo. Ave César! Habemus César, habemus Amigos.

O amigo dos reis.

Paulo Roberto Bornhofen
 

 

Tormenta de emoções


Doce, o aroma se expande, contamina o ar.
Energia, lancinante, desfalece o ser.
A pele se amplia em cada um dos poros, arde!
Como hortelã, invade, refresca a alma.

Trovões de violinos embalam a fúria serena do mar.
A aridez da seda, sutil, embriaga o alvorecer.
O ardor da lava enrijece a fibra, desfigura a carne.
A sensualidade do aroma alastra, acalma.

Placidamente ouço (minha) voz urrar.
A fúria escaldante congela o prazer.
O fogo da liberdade destrói o limiar.
Realidade retumbante, abrupta, desperta.

Lampejos - de lucidez - fingem aflorar.
O desconhecido nutre o resplandecer.
O inédito impulsiona o desabrochar
Em êxtase, finalmente, a resposta liberta.

Foi... Só o amor!
 

Paulo Roberto Bornhofen