A Távola Redonda
Meus
amigos e eu gostamos de encerrar nossa reuniões semanais em
torno de uma mesa de bar. Nem tanto pelos acepipes que
procuramos devorar vorazmente, mas sim pelo momento de
relaxamento e descontração que nos proporciona. Dia destes em
razão de termos prolongado a reunião, chegamos em nosso refugio
e deparamos com o mesmo com suas portas cerradas. Decepção total
nos rostos de todos nós. Por alguma razão, que a razão
desconhece, havia sido quebrada nossa rotina. Mas não nos damos
por vencidos. Não seria a má vontade de um dono de
estabelecimento gastronômico, agora elevado a condição de
simples dono de boteco - percebam a velocidade com que mudam
nossos conceitos com relação às pessoas quando somos
contrariados - que nos levaria para a lona.
Rapidamente em nosso grupo surgiram vozes de protesto, se
formando uma linda cena, com alguns respeitáveis senhores
parados em frente a um boteco, fechado, erguendo seus punhos ao
ar em um honrado brado de protesto. Mais rápido ainda surgiu uma
solução para o impasse, vamos para outro lugar. Sem o menor
pudor e cheios de razão, nos propomos a buscar refugio em outro
lugar que nos recebesse. Nos comportamos como aquela “pura
donzela”, que quando pronta a se entregar de corpo e alma ao seu
amante, encontra este indisposto ou por qualquer razão
indisponível, e para honrar sua libido sai à procura do primeiro
que lhe satisfaça e a este se entrega deliciosamente, sem o
menor remorso. Saímos em carreata percorrendo as vazias ruas da
cidade procurando por uma ínfima luz que denunciasse a
disponibilidade daquele que seria nosso novo refugio.
Enquanto nos deslocávamos fiquei observando aquela fila de
carros, cada qual ocupado por uma única e revoltada alma, mas
que agia como se fosso é só organismo vivo. Parava, andava,
mudava de direção em uma linda harmonia. Devido ao adiantado da
hora éramos praticamente os únicos a ocupar as ruas naquele
momento, de modo que nada nos importunou em nossa verdadeira
caçada. Alguém que pudesse ver a harmonia daqueles cavaleiros
errantes certamente ficaria surpreso, até mesmo assustado com
tal espetáculo. Para nossa satisfação encontramos aquilo que
procurávamos, não um simples boteco, mais um lindo e maravilhoso
estabelecimento gastronômico, onde pudemos não só saciar nossa
fome e dividir nossas alegrias, mas acima de tudo executar nossa
vingança.
Ainda
não sei se a nossa alegria se deu em razão da qualidade do
ambiente e do tamanho da fome, que eu pude constatar mais uma
vez que progride geometricamente, ou pela oportunidade ímpar,
que com toda a certeza nunca mais iria se repetir de vingarmos
nossa honra. Aumentando a nossa alegria nos deparamos com uma
enorme mesa redonda, local propício para o deleite (fique a
vontade para usar sua imaginação). Já perceberam que em um
restaurante as mesas no formato redondo são as que recebem os
clientes mais felizes, é só aferir o nível de ruídos que vem
destas mesas.
Após
cada qual tomar o seu lugar e de sermos servidos da mais
deliciosa das cervejas, enquanto os pedidos ainda eram
preparados, já nos sentíamos donos daquele local, como se o
mesmo estivesse sido construído para nos atender e que aquela
mesa havia se preservada até a nossa chegada, não sendo usada
anteriormente por nenhum atrevido ser. Diante de tal constatação
não nos restava nada mais a fazer se não proporcionar os mais
demorados prazeres para a nossa companheira, a mesa, que entre
um brinde e outro foi batizada de A TÁVOLA REDONDA, que tal qual
a lenda, após ferozes batalhas recebia o Rei Artur e seus
valorosos cavaleiros, talvez não tanto cavalheiros, mas tudo
bem. Nos prolongamos tanto em nossa árdua tarefa de proporcionar
tanto prazer a nossa Távola que o tempo passou e não nos demos
conta, mais isto também não importava mais, o que mais importava
era o raro momento.
Finda
a nossa aventura épica fomos cada qual para sua casa, felizes,
saciados, satisfeitos e acima de tudo com aquele sentimento
heróico de dever cumprido. Porém, foi só chegar em casa para a
fantasia se desfazer e a realidade mostrar suas terríveis
garras, a verdadeira batalha épica se apresentou. A mais
terrível de todas as batalhas já travada por este simples
mortal, que espero que o imortal Rei Artur e seus cavaleiros não
tenham tido que travar, qual seja, a de explicar para a esposa a
razão do atrevimento de chegar tão tarde em casa. Não pelo fato
de a amada esposa ser cruel, mas simplesmente em razão da
desculpa ser ridícula.
Após
esta derrota descomunal, que mais tarde fiquei sabendo, também,
foi sofrida pelos demais cavaleiros da nossa távola redonda, não
nos restou outra saída se não a de semanalmente nos socorrermos
da mesma mesa, no mesmo bar, nomeá-la novamente de Távola
Redonda, nos revestirmos das honrarias de Cavaleiros, porém, com
o cuidado de nomearmos um Cavaleiro de Senhor do Tempo, o homem
que cuida do relógio e nos salva de termos que enfrentar
novamente batalhas domésticas. Pois, já ensinava aquele grande
general, as batalhas que não podem ser vencidas tem
obrigatoriamente que ser evitadas.
Paulo Roberto Bornhofen
Atrás do poste
O amor é um sentimento tão belo, que chega a ser irritante
começar um texto com esta afirmação. Grandes poetas já cantaram
o amor com muito mais maestria, já cantaram e já choraram o
amor. Diferente da felicidade, que nos faz chorar e rir de
alegria, com o amor vamos do céu ao inferno na velocidade da
luz. O amor é gostoso, provoca delírios, nos deixa entorpecido.
Porém, quando o amor não é correspondido, gera sofrimento tão
terrível(?).
Muitas pessoas sofrem de amor, simplesmente, por acharem que não
são correspondidos. O que lhes sobra em amor, falta em coragem.
Vivem uma vida inteira de sofrimentos, culpando o amor, quando
na verdade deveriam culpar seus temores, sua covardia. Muitos
destes sofredores, de tanto sofrer, encontram no sofrimento do
amor não correspondido e covardemente guardado, um alento, um
sopro de vida. Poder ver a pessoa amada, mesmo que seja na
companhia de outra, já é o suficiente. Procuram desculpas,
inventam situações, se tornam amigos do “outro” ou da “outra”,
para num sentimento de pura morbidez, ter compartilhado consigo,
os gostos e prazeres sentidos pela pessoa amada. Fazem isto com
tal maestria escondendo tão bem seus sentimentos, que no
transcorrer de sua existência, não mostram a mínima cicatriz. E,
quando esta cicatriz esta a mostra, o tecido se regenerou tão
bem, que se tornou imperceptível.
Neste
jogo do amor, que não perdoa, os que não conseguem vencer,
buscam as mais mirabolantes formas de tentar ludibriar, isto
mesmo, tentam enganar o amor. Criam situações, armam jogadas,
tramam movimentos, fazem o que podem para enganar, na tentativa
de se verem envoltos em mágicos momentos, numa verdade
solitária. Nestas situações a imaginação aflora com toda a sua
grandiosidade alimentada por uma fertilidade estarrecedora. Por
mais absurdas que possam ser qualificadas, por nós, simples
espectadores, para eles, estes loucos do amor, são apoteóticos
momentos.
A dor
do sofrimento é vaporizada por raros momentos de prazer. Na
busca desta felicidade insana, onde a covardia fala mais alto
que a felicidade, tudo pode, menos a revelação. Tudo é
aceitável, menos a franqueza. Tudo é desejado, mas nada se
arrisca. Tudo se vive, menos a felicidade, pois esta só é real
no delírio. E o delírio será que tem fim? Se não tem, se a
loucura é total, então a felicidade é total, não exigindo nada
mais para se completar. Assim se fecha o ciclo da loucura, que é
alimentado pelo amor, pela covardia, pelo temor, pela negação,
pela mentira, mas que em uma análise mais apurada nada mais é do
que a felicidade. É por isto que os loucos só sofrem quando tem
noção da loucura, mas em seus delírios são felizes. É por isto
que eu me escondo atrás do poste, meu cantinho de felicidade,
onde minha amada, o amor de minha vida, sempre esta a minha
espera.
Paulo Roberto Bornhofen
Folia de Reis
A Folia de Reis é uma tradição de origem portuguesa que,
lamentavelmente, vem se perdendo com o tempo, quase não é mais
praticada. Mesmo nas comunidades descendente dos colonizadores
da terra de Camões, os mais jovens já não a conhecem. Mas,
acontece que em alguns redutos ela resiste bravamente. Resiste
graças à insistência de alguns audazes que teimam em manter viva
esta bela tradição. De forma bem simplista, podemos descrever a
Folia de Reis como sendo a representação da peregrinação feita
por Gaspar, Baltazar e Belchior, os Reis Magos, há mais de dois
mil anos em busca daquele que ficou popularmente conhecido como
o Menino Jesus. Por esta razão acontece no período de Natal.
A
última vez que eu havia presenciado uma apresentação desta
manifestação folclórica já não lembrava mais. Forçando a memória
me vinham pequenos fragmentos como que em um “flash back” mau
feito. Até que, para nossa surpresa, fomos acordados, em certa
madrugada, após a terceira badalada do cuco, por uma cantoria.
Começou meio que ao longe, mas na verdade era bem perto, apenas
Morfeu, um tanto quanto zangado, se recusa a ir embora. Como
vingança provocava uma leve confusão. Fiquei quieto, iria
resistir, pois a companhia de Morfeu me era agradável. Passados
alguns instantes ouvi uma voz que brandia “acorda, acorda”!
Pulamos da cama como em perfeita coreografia. O que fazer? O que
fazer? O que fazer? Lavar o rosto foi à primeira coisa que me
veio, e assim fiz. Ainda estava meio perdido, mas corri para a
porta e ao abri-la fiquei maravilhado. Melhor dizendo, fiquei
bestificado. Em frente ao portão um grupo de músicos, bem
uniformizado e muito bem treinado entoava cânticos e ao redor
deles um outro grupo, eram os amigos e os amigos dos amigos.
Continuava perdido, não sabia o que fazer. Voltei para dentro e
fui me vestir, tirar aquele pijama já que o mesmo não era
condizente com a grandeza do momento.
Abri o portão e eles muito cerimoniosamente foram entrando.
Primeiro no jardim e após em casa. E a cantoria continuava.
Ainda sem saber o que fazer, fui para fora, deixando a casa para
eles. Não foi uma situação premeditada de desrespeito, mas sim
uma reação natural de quem de repente percebeu não estar à
altura de tamanha cortesia. Não sei por que, mas continuava
perdido.
Talvez vendo meu estado, ou pela experiência, meu amigo, o
César, foi me orientando a como proceder. Improvisamos uma
recepção, que por mais que nos esforçássemos, nunca seria um
banquete a altura daquela corte real. Era o que conseguíamos
fazer, diante da completa ausência de raciocínio. Mas meu amigo,
o César, estava preparado. Em seu carro havia cerveja gelada e
algumas centenas de salgadinhos para suprir aos desavisados,
isto sim era realeza.
Feita
uma pausa na cantoria, passamos a conversar com os integrantes
daquele grupo folclórico e pudemos notar que eram pessoas
alegres, descontraídas, assumidamente felizes, e que se
esforçavam ao máximo, não apenas para manter viva a tradição,
mas para amenizar ao máximo o trauma inicial que de certa forma
causa em algumas pessoas, os desavisados. Trauma que se
transforma em felicidade, não por imposição de decreto real, mas
pela magia do momento que se revelou maravilhoso.
Quando o grupo partiu, não sem antes entoar uma cantoria de
despedida, conjugada com um discreto, mas certeiro pedido de
ajuda para que a tradição possa ser mantida, fiquei por alguns
instantes me revirando na cama, procurando onde Morfeu tinha ido
se esconder e me veio uma certeza. A certeza de que quem ao
menos uma vez na vida for visitado pela corte dos três Reis
Magos, pode dizer que tem amigos. No nosso caso a corte de
Baltazar, Belchior e Gaspar era capitaneada pelo não menos nobre
César, não o imperador, mas o amigo. Ave César! Habemus César,
habemus Amigos.
O amigo dos reis.
Paulo Roberto Bornhofen
Tormenta de
emoções
Doce, o aroma se expande, contamina o ar.
Energia, lancinante, desfalece o ser.
A pele se amplia em cada um dos poros, arde!
Como hortelã, invade, refresca a alma.
Trovões de violinos embalam a fúria serena do mar.
A aridez da seda, sutil, embriaga o alvorecer.
O ardor da lava enrijece a fibra, desfigura a carne.
A sensualidade do aroma alastra, acalma.
Placidamente ouço (minha) voz urrar.
A fúria escaldante congela o prazer.
O fogo da liberdade destrói o limiar.
Realidade retumbante, abrupta, desperta.
Lampejos - de lucidez - fingem aflorar.
O desconhecido nutre o resplandecer.
O inédito impulsiona o desabrochar
Em êxtase, finalmente, a resposta liberta.
Foi... Só o amor!
Paulo
Roberto Bornhofen